
Nesse episódio do Papo Lendário, Leonardo entrevista Jota, doutorando em Letras Clássicas, que falou sobre o tema de seu mestrado, o herói grego! Conheça a obra clássica "O Catalogo de Mulheres" e entenda como foi o fim dos heróis gregos. Conversamos também sobre o que define o herói grego, e se haveriam ou não heroinas nessas narrativas. Além de muito mais sobre esse tema. -- EQUIPE -- Pauta, edição: Leonardo Locução da abertura: Ira Croft Host: Leonardo Participante: Jota -- APOIE o Mitografias -- -- LINKS -- Contatos do convidado: Email - jota.oliveira@usp.com.br Academia.edu Instagram pessoal - @ohelenista @afrodision -- Agradecimentos aos Apoiadores -- Alan Franco Alexandre Iombriller Chagas Aline Aparecida Matias Ana Lúcia Merege Correia Anderson Zaniratti André Victor Dias dos Santos Antunes Thiago Bruno Gouvea Santos Clecius Alexandre Duran Domenica Mendes Eder Cardoso Santana Everson Everton Gouveia Gabriele Tschá Jeankamke Jonathan Souza de Oliveira José Eduardo de Oliveira Silva Leila Pereira Minetto Lindonil Rodrigues dos Reis Marcia Regina M. Garcia Mateus Seenem Tavares Mayra Patricia Ussyk Rafael Resca Rafa Mello Rosenilda A. Azevedo Surya Namaskar Talita Kelly Martinez Willian Rochadel -- Transcrição realizada por Amanda Barreiro (@manda_barreiro) -- [00:00:00] [Vinheta de abertura]: Você está ouvindo Papo Lendário, podcast de mitologias do projeto Mitografias. Quer conhecer sobre mitos, lendas, folclore e muito mais? Acesse: mitografias.com.br. [Trilha sonora] Leonardo: Muito bem, ouvinte. Aqui no Papo Lendário já falamos algumas vezes sobre o conceito de herói e até já citamos as narrativas de alguns, principalmente dos gregos, e hoje iremos nos aprofundar nesse tema, já que temos um convidado que fez estudos sobre isso focado em algumas obras clássicas da mitologia grega. Então, Jota, muito obrigado por tê-lo aqui no episódio e pode se apresentar para os ouvintes. Jota: Leonardo, obrigado pelo convite. Oi, pessoal. Eu sou o Juarez Oliveira, mas podem me chamar de Jota, que é como todo mundo me chama. Eu sou formado em Letras pela FFLCH-USP; fiz mestrado justamente no tema que a gente vai discutir hoje, que é o herói grego. Eu estudei uma obra chamada O Catálogo das Mulheres, atribuído a um poeta chamado Hesíodo, e nesse processo eu estudei como foi o fim da linhagem dos heróis não só nesse poema, mas também na tradição como um todo. E aí agora estou trabalhando com Afrodite no doutorado, estou estudando-a na Ilíada e na Odisseia. Leonardo: Beleza. Foi até legal você ter citado as suas pesquisas de Afrodite, que já fica para o ouvinte, quem sabe, mais um episódio sobre o tema. Jota: Opa, aí vai ser legal também. Leonardo: Bom, hoje, como então vamos falar do herói, eu achei bem interessante. Ouvinte, esse episódio é feito em cima desses trabalhos que o Jota fez. Eu achei bem interessante essa questão de ser o fim do herói, da linhagem, a questão do Catálogo das Mulheres, que é uma obra que acho que quem conhece é quem estuda mais a fundo mesmo, porque em geral muitas vezes a pessoa não ouve tanto falar do Catálogo das Mulheres, nem mesmo até por ser do Hesíodo. Quando se fala do Hesíodo, o principal mesmo é sempre a Teogonia. Mas então a gente vai entrar nesse tópico, ouvinte, mas antes eu acho legal, então, falar do herói. Vamos situar o que é o herói, porque, bom, quem é ouvinte aqui do Papo Lendário já deve imaginar, porque a gente já falou isso várias vezes, mas a ideia do herói que a gente tem atualmente, o herói moderno, por assim dizer, é diferente do herói grego. Tem a sua relação, mas não dá para a gente olhar o herói acho que de antigamente com os olhos de agora. Jota: Sim, de fato existe uma certa distância e tem alguns pontos de contato, mas existe eu acho que mais distância do que proximidades, se a gente for pensar. Quando a gente está falando do herói grego, um elemento muito definidor, eu acho, é o fato de que o herói grego está relacionado aos deuses. Geralmente, ele é o filho de uma divindade com um mortal ou então ele é descendente de algum deus - neto, bisneto, tataraneto, enfim. Você pode ter várias linhagens distantes dos deuses. Enquanto que o herói moderno... e aí eu acho até um pouco difícil de fazer essa diferenciação, porque a gente tem vários tipos de herói. A gente tem o herói... vamos chamar assim, o super-herói, o herói de entretenimento, você tem o herói literário, você tem muitos heróis, e eu acho que a conceituação de herói é bastante plural para a gente na modernidade. Leonardo: Foi interessante você falar da questão de ser filho de uma divindade ou da linhagem, muito que é o clássicão que a gente vê quando vai ver Hércules, Perseu, esses personagens míticos. Marca bem isso, de ser na maioria das vezes filho de Zeus - é o que mais teria filho, nesse caso -, mas é muito comum isso mesmo. E é interessante, você mostrou que também não precisa necessariamente ser um filho ali direto, ele pode ter a linhagem. Jota: É, eu acho que a gente pode pegar dois exemplos bastante canônicos, quando a gente pensa em Antiguidade, que são Aquiles e Odisseu. Aquiles é filho de uma deusa com um mortal, a deusa Tétis, e seu pai, Peleu; Odisseu já é um herói de linhagem que remonta a Hermes, mas ele eu não lembro exatamente quantas linhagens distante, mas, se eu não me engano, ele é bisneto de Hermes, senão mais. Então você tem um distanciamento maior, e ainda assim é herói. E uma coisa que eu acho muito legal também em pensar nessa coisa do herói moderno e do herói grego, e aí é um ponto de contato, de proximidade entre os dois, é que os dois têm um valor social muito importante, e eu acho legal inclusive que a gente está gravando esse podcast hoje, porque ontem a gente teve um episódio: a queima da estátua do Borba Gato, aqui em São Paulo. Não sei se você ficou sabendo. Leonardo: Sim, é bem perto de casa. Então marcou muito, porque aquela estátua faz parte da minha infância, porque qualquer lugar que eu ia, eu passava em frente àquela estátua. Então foi marcante, ontem. Jota: E aí a gente vê como a noção de herói é muito flutuante na modernidade. Borba Gato é um herói do ponto de vista histórico e de elite, ele é um bandeirante, garantiu muita coisa para a gente, mas a custo de quê? A custo de muita coisa, a custo de escravismo, a custo de morte, a custo de muita coisa. Ao mesmo tempo, se a gente pega para pensar o herói grego, ele nem sempre é um modelo de moral. Você tem, por exemplo, Teseu. Por mais heroico que ele seja, e ele faz grandes coisas, ele é o grande herói ateniense, ele rapta mulheres, ele mata pessoas, ele engana. Odisseu, por exemplo - voltando para o Odisseu -, é o herói do engano. Ou seja, a questão da moral, tanto para o herói moderno quanto para o herói grego, não é determinante. Lógico, para o conjunto social que se beneficia dos feitos desse herói, a moral dele passa em branco, porque o benefício para aquela sociedade foi maior do que o malefício que ele causou para outros. E eu acho que a gente consegue aproximar isso também do caso do Borba Gato: ele é herói de alguns, mas e de todos os outros? É um ponto interessante de a gente trazer. E aí vem o super-herói, que é um herói que geralmente vai fazer algum bem pela humanidade, às vezes a custo de muitos prejuízos para a própria humanidade, mas, entre todos eles, tanto o super-herói quanto o herói nacional, vamos chamar assim, o herói local e o herói grego, você tem aí uma questão da capacidade de realização de alguma coisa, e eu acho que esse é um ponto de contato interessante para a gente pensar. Leonardo: E, vendo dessa forma, a gente vê como o herói, querendo ou não, vai estar preso ao seu tempo e espaço. Se você tirá-lo da época e do local, ele já vai perder o status de herói. Não vai ser visto... é o que ocorreu ontem. Jota: Exatamente. Você tem um herói por um determinado momento. Tem alguns filmes de super-herói que também questionam isso. Acho que o X-Men é um filme que fala muito disso, é uma narrativa que fala muito disso, porque, ao mesmo tempo que eles são superpoderosos e podem proteger um determinado grupo, uma certa quantidade de pessoas, eles também podem colocá-las como reféns e prejudicá-las muito. Leonardo: É bem importante ter essa distinção para a gente não... que é uma coisa que me incomoda um pouco quando eu vejo pondo os heróis gregos... são heróis gregos, porque o próprio termo veio de lá, é definido dessa forma, mas a gente tem que ter noção de que era outra sociedade, outros valores. O que eles fizeram atualmente não seria aceito, então a gente não pode ter esse anacronismo. Jota: Exato, muitas coisas são situadas, elas partem de um contexto que favorece. Guerras na Antiguidade eram comuns, então que o herói ateniense... só para pegar uma rivalidade que sempre, pelo menos, surge na escola, então Atenas e Esparta: você ter um herói ateniense que prejudica o espartano, para o ateniense não é problema; mas, ao mesmo tempo, você pode ter um grande herói espartano que prejudicou atenienses. E aí eles continuam sendo heróis. Isso pensando no herói enquanto essa figura sociopolítica, porque a gente vai discutir também as outras dimensões do herói. Então eu acho que é muito interessante a gente pensar essa questão do contexto. A gente deve continuar exaltando Borba Gato? De jeito nenhum. Mas, para o grupo dele, ele fez grandes coisas. O que a gente precisa é sempre estar repensando esse passado. E a gente tem que pensar também que, no contexto da Grécia Antiga, as ações heroicas também eram repensadas, as ações eram questionadas, porque você tinha uma série de valores que deveriam permear a conduta humana. Então você tem heróis viciosos e heróis virtuosos, mas o vício não necessariamente reduz a heroicidade de um herói. Consegue perceber essa nuance? Leonardo: Seria a ideia de ele se manter como herói, mas ele teria pontos falhos e teria problemas.