
Reflexão sobre as catequeses de São João Paulo II. Referindo-nos às palavras de Cristo sobre o tema do matrimônio, em que Ele apela para o “princípio”, dirigimos a nossa atenção, há uma semana, para a primeira narrativa da criação do homem no Livro do Gênesisi. Hoje passaremos à segunda que, sendo Deus nela chamado “Javé”, é muitas vezes denominada “javista”. A segunda narrativa da criação do homem (ligada à apresentação tanto da inocência e felicidade original como da primeira queda) tem, por sua natureza, caráter diverso. Embora não querendo antecipar as particularidades desta narrativa —porque nos convirá apelar para elas nas outras análises— devemos reconhecer que todo o texto, ao formular a verdade sobre o homem, nos maravilha com a sua profundidade típica, diversa da do primeiro capítulo do Gênesis. Pode-se dizer que é profundidade, de natureza sobretudo subjetiva, e portanto, em certo sentido, psicológica. O capítulo 2º do Gênesis constitui, em certo modo, a mais antiga descrição e registro da autocompreensão do homem e, juntamente com o capítulo 3º, é o primeiro testemunho da consciência humana. Com aprofundada reflexão sobre este texto —por meio de toda a forma arcaica da narração, que manifesta o seu primitivo caráter mítico1— encontramos nele “in nucleo” quase todos os elementos da análise do homem, aos quais é sensível a antropologia filosófica moderna e sobretudo contemporânea. Poder-se-ia dizer que Gn. 2 apresenta a criação do homem especialmente no aspecto da sua subjetividade. Confrontando entre si ambas as narrativas, chegamos à convicção que esta subjetividade corresponde à realidade objetiva do homem, criado “à imagem de Deus”. E também este fato é —doutro modo— importante para a teologia do corpo, como veremos nas análises seguintes.