
Reflexões das catequeses de São João Paulo II. Na reflexão precedente, começamos a analisar o significado da solidão original do homem. O ponto de partida foi-nos dado pelo texto javista, e em particular pelas seguintes palavras: Não é bom que o homem esteja só: vou fazer-lhe uma auxiliar semelhante a elei. A análise das passagens pertinentes do Livro do Gênesis (cap. 2) levou-nos já a conclusões surpreendentes no que diz respeito à antropologia, isto é, a ciência fundamental acerca do homem, contida neste Livro. De fato, em relativamente poucas frases, o antigo texto delineia o homem como uma pessoa com a subjetividade caracterizando a pessoa. Quando Deus-Javé dá a este primeiro homem, assim formado, o mandamento que diz respeito a todas as árvores que crescem no “jardim do Éden”, acima de tudo a árvore do conhecimento do bem e do mal, isso adiciona o aspecto da escolha e da autodeterminação (ou seja, do livre arbítrio) aos contornos do homem acima descritos. Deste modo, a imagem do homem, como pessoa dotada de uma subjetividade própria, aparece diante de nós como acabada no seu primeiro esboço. O conceito de solidão original inclui tanto a autoconsciência quanto a autodeterminação. O fato de o homem estar “só” encerra em si mesmo essa estrutura ontológica, e ao mesmo tempo, indica autêntica compreensão. Sem isto, não podemos compreender corretamente as palavras seguintes, que constituem o prelúdio da criação da primeira mulher: “vou fazer-lhe uma auxiliar”. Mas, sobretudo, sem aquele significado profundo da solidão original do homem, não se pode compreender nem interpretar corretamente a situação completa do homem, criado “à imagem de Deus”, que é a situação da primeira, ou melhor da primitiva Aliança com Deus.