
Live realizada no perfil @tdc.sorocaba. Convém voltarmos ainda hoje ao significado da solidão original do homem, que emerge sobretudo na análise do chamado texto javista de Gênesis 2. Permite-nos o texto bíblico, como já verificamos nas precedentes reflexões, pôr em relevo não só a consciência do corpo humano (o homem é criado no mundo visível como “um corpo entre corpos”), mas também a do seu significado próprio. Tendo em conta a grande concisão do texto bíblico, não se pode, admitidamente, ampliar muito essa implicação. É porém certo que tocamos aqui o problema central da antropologia. A consciência do corpo parece identificar-se neste caso com o descobrimento da complexidade da própria estrutura que, baseada numa antropologia filosófica, consiste afinal na relação entre a alma e o corpo. A narrativa javista com a própria linguagem (isto é, com a sua própria terminologia) exprime-o dizendo: O Senhor Deus formou o homem do pó da terra e insuflou-lhe pelas narinas o sopro da vida, e o homem transformou-se num ser vivo1. E precisamente este homem, “ser vivo”, distingue-se em seguida de todos os outros seres vivos do mundo visível. O que leva a concluir a existência deste “distinguir-se” do homem, é exatamente o fato de só ele ser capaz de “cultivar a terra”i e de “a dominar”ii. Pode-se dizer que a consciência da “superioridade”, inscrita na definição de humanidade, nasce desde o princípio baseada num atuar ou comportar-se tipicamente humano. Esta consciência traz consigo especial percepção do significado do próprio corpo, percepção que emerge precisamente do fato de que é tarefa do homem “cultivar a terra” e “dominá-la”. Tudo isto seria impossível sem uma intuição tipicamente humana do significado do próprio corpo.