
Josephine apaixonou-se (de novo) - António Gil para Radio Histórias. Normalmente sou eu que a consulto porque ela sabe tudo. Desta vez foi ao contrário: - Gil, deita-me as cartas preciso de saber de umas coisas! Mau! - pensei - então agora é assim? as coisas inverteram-se? - Já sei o que estás a pensar - eu avisei-vos que ela sabia tudo - mas devias saber melhor: casa de ferreiro espeto de pau. Eu podia deitar as cartas para avaliar o meu futuro mas...seria influenciada pelos meus desejos, perccebes? tens de ser tu, sempre te disse que tinhas um potencial mediúnico superior ao meu, mas nunca quiseste explorar isso! faz isso pela tua velha amiga, fazes? conheci um tipo e... - Esquece! - retorqui com a voz mais durona que consegui engendrar - eu não me meto em adivinhações nenhumas, menos ainda desse tipo. Se gostas dele, dá umas quecas e deixa andar, logo verás como corre a coisa. - Oh tu és mau - disse ela quase chorando ao telefone - eu preciso de saber coisas dele! - Mas tu sabes tudo! -objectei - sabes que ele é entre 5 e 10 anos mais novo que tu, que é casado mas vive um momento de tédio matrimonial, que quer curtir sem compromissos, que anda meio perdido na vida! - Co-como? - gaguejou ela. Ouvi o som de seu isqueiro: mais uma cigarrilha. Apostei que tinha acabado de despejar a garrafa de scotch no seu copo. Ouvi-a soltar uma baforadaa de fumo. - Dassssse, Gil sabes tudo isso sem deitares as cartas? começo a ficar assustada contigo! - Calma! - tive eu mesmo de acender um cigarro e ir em busca de uma bebida - eu não sei nada sobre ele mas sei tudo sobre ti! o que acabo de dizer é a história de toda a tua vida amorosa, certo? - Tens razão - disse ela antes de soltar uma gargalhada - fºda-se, tenho de parar de te contar sobre a minha vida íntima. Daí a conversa derivou para os ''bons velhos tempos''. Já entaramelando a voz (a idade não perdoa, a resistência ao álcool vai diminuindo - ela entrou na fase da ternura: - Explica-me uma coisa: porque é que não deu certo entre nós? percebes que me terias poupado anos de busca do ''homem certo'', ou não? - Sim, eu tinha tudo para te satisfazer, sou mais novo, andava meio perdido mas não era casado, lembras-te? - respondi gargalhando. - Ah ah ah ah - riu-se ela com gosto também - é verdade, faltava-te essa parte. Mas agora que já és, não queres resolver isto? - Ná! nem tu! sabemos demasiadas cisas um do outro, certo? - Fºda-se Gil, tás a ver por que razão eu acho que tu és uma criatura mediúnica? não sei como fazes mas chegas depressa às coisas, mesmo sem lançar cartas! - Josephine, segura os cavalos: quem sabe de tudo és tu. Eu só dou palpites. Não tenho intuição feminina, percebes? isso é coisa de mulheres. Tu tens isso tudo e sabes ler as cartas, és uma profissional da adivinhação e das melhores. Devia haver um prémio Nobel para essa arte também. - Gil, vai-te fºder - vociferou ela fazendo cair a chamada abruptamente. - Olha, zangou-se - pensei com alguma surpresa- logo agora que estava a ir tudo tão bem! Apaguei o cigarro e encolhi os ombros. Não previra tal reacção, claro mas eu não sei tudo, Josephine sim. Não estava a ser cinico, ela realmente tem dons divinatórios. Mas bom, ela ainda é humana. E mulher. Um dia destes estaremos a beber um copo juntos e nada disto terá importância nenhuma, tenho a certeza. É a ''história da nossa longa relação''. O que ela domina sobre o futuro só tem paralelo no que eu domino sobre o passado. E é por isso que por vezes se torna difícil falarmos sobre o presente. Josephine apaixonou-se (de novo) - António Gil para Radio Histórias.