
Apocalígrafo. João Carlos Monteiro Moreira. Capítulo 13. O INTERIOR FICOU SEM PESSOAS. Manténs rebanhos, ensinas pastores. Em verdes prados adivinhas a espiga. Das tuas encostas de vinho maduro. Azeites de ouro virgem de oliva. Tuas vestes de granito talhado. Perduram desde tempos longevos. Ventre fecundo de trigo malhado. Seios de serras de altos relevos. Num regaço de casas crias teus filhos. Do morro avistas telhados, caminhos. Pintados de branco em invernos frios. Lareiras de fumo aquecem seus ninhos. Que rica tu eras em tempos d'outrora. Trabalho de muitos ao nascer da aurora. Teus fartos mercados assentes no chão. De rendas bordadas e cheiro a Verão. Teus filhos partiram, ficaste a chorar. A dor que tu sentes não deixa respirar. Tivesses tu pernas e soubesses andar. Com eles irias, não os ias deixar. Dias passados saudades que tingem. Tuas ruas desertas nas noites de breu. Cafés na avenida boêmios de copos. Afogam a dor a cambio de uns trocos. Anseias que os dias passem ligeiros. Apressas o tempo e contas as horas. Teus filhos já voltam com o calor. Que alegre tu ficas, esqueces a dor. Acordas contente por ver tanta gente. O perfume dos dias antigos se sente. À noite passeias e falas francês. Tuas ruas fervilham de vida outra vez!.