
A volta do futebol num cenário desfibrado de gente é uma triste metáfora dos nossos dias. Os campeonatos voltaram, com estádios vazios. Ou pior: uma falta preenchida com fotos, faixas e até gravações de uma torcida imaginária. Mas o mais falso, ao que parece, não está nas arquibancadas, mas no próprio futebol. De olho no negócio, a imprensa e as emissoras passaram a exibir uma euforia chocha, marcada por uma paixão que não se realiza na prática. Quase um ato masturbatório. Tudo o que se fala do esporte está cercado o tempo todo pela dinâmica do negócio e não do jogo e de suas relações com a vida. São os seguintes os assuntos: se os estádios vão ser chamados com nomes de patrocinadores, quem ganhou a concorrência e vai transmitir os jogos, o mercado de transferências de jogadores, as infindáveis crises e denúncia de corrupçãodas equipes. O que se explica até mesmo pelo retorno dos campeonatos, que atenderam mais aos interesses dos empresários do que das torcidas ou dos atletas. Se a bola real rola no estádio vazio, a política parece seguir a mesma inspiração no campo também vedado da presença real do cidadão no debate sobre os problemas que lhes dizem respeito. Assim como a imprensa esportiva naturaliza uma realidade virtual, os jornais e TVs tratam com a mesma falta de realidade os fatos de interesse da sociedade. Nos jornalões, o falso balé – quando muito – do espaço aberto aos dois lados. Nas telinhas, os mesmos comentaristas travestindo seu liberalismo atávico em isenção. As coberturas criaram um padrão que elide a presença do povo e da pluralidade em nome de uma concepção única de realidade social e econômica. Assim, em relação à pandemia, por exemplo, os maiores responsáveis pela situação de calamidade são as pessoas sem máscara, que parecem fazer parte de uma brigada homicida e não de um grupo de trabalhadores jogados no front da insegurança por patrões preocupados com a “economia”. O acompanhamento do desafio científico em torno de tratamento e vacinapara a covid-19 traz também um inegável marcador ideológico: só os países capitalistas são capazes de fazer ciência no sentido nobre da palavra. A desconfiança com relação às vacinas da China, Rússia e Cuba fazem parte de um protocolo (para usar a expressão da moda) que atropela a realidade. A corrida que um dia foi espacial, hoje se concentra no interior de uma célula. Não é um acaso que o clima de Guerra Fria traga a Sputnik de volta. O interesse da imprensa dita profissional, por sua vez, não é esclarecer com o iluminismo da ciência e da boa informação, mas prejulgar tendo como fundamento a certeza que alguns países mentem, censuram e ludibriam por natureza. Enquanto isso, as grandes corporações capitalistas são sempre citadas em suas parcerias com universidades inquestionáveis, para fazer sombra a seu histórico de lucros astronômicos acumulados ao longo do tempo, tendo as doenças (sobretudo as epidemias de países pobres) como seu campo de atuação privilegiado.