
Frei Betto está de quarentena. Ele faz parte do grupo de risco. Não pelos 76 anos bem vividos. Tem uma saúde íntegra, de corpo e alma, fruto de seus cuidados e método que aprendeu com exercícios dos místicos. O risco que corre é em função de amar demais. O amor salva, mas também cobra seu quinhão de necessidade de zelo em razão da sensibilidade à flor da pele, da empatia com as dores dos irmãos (inclusive o irmão sol, a irmã lua e a Mãe-Terra) e da missão irrevogável de trabalhar para combater as injustiças e melhorar o mundo. O novo livro de Frei Betto, Diário de quarentena – 90 dias em fragmentos evocativos, é um registro desse momento único na vida da humanidade, do planeta e do nosso combalido tempo, que ele nomeia de “capitaloceno”, com sua incitação inumana ao consumo. Com ele, o escritor se aproxima da incrível marca dos 70 títulos (sem contar as obras em colaboração), numa trajetória literária que reúne contos, cartas, romances, reportagens, entrevistas, ensaios, cartilhas e orações. Mística e política; ficção e memorialismo; invenção e jornalismo. O Diário, de certa maneira, é uma síntese dessas formas de expressão experimentadas por Frei Betto ao longo dos anos e de suas dezenas de livros. Cronologicamente esticado entre 18 de março e 16 de junho de 2020, como um varal sobre os dias da pandemia, cada entrada oferece ao leitor uma expressão singular, do registro estrito ao pequeno conto, do lirismo à evocação mística, da tentativa de futurologia desencantada à retomada da memória.