
Homilia X Domingo do tempo comum Neste domingo, nos encontramos com Jesus em sua casa. O evangelho narra, de certo modo, o cansaço do Senhor, que, percorrendo as aldeias, ensinava, curava os doentes e expulsava os demônios. E é justamente a atividade de exorcismo que começa a gerar dúvidas e perturbações nos seus familiares e nos escribas. A boa nova, anunciada às claras, pode sim perturbar. Eles começam a ouvir um ensinamento muito novo e a comprovar as palavras com os fatos: a autenticidade costuma mesmo ser escandalosa. O evangelho forma um quadro cujo centro é o diálogo de Jesus com os escribas, e a moldura é o tema dos familiares de Jesus. Exploremos esse quadro! No centro, temos uma bela profissão de fé implícita: Jesus veio nos libertar do poder do mal. Ele é o salvador da humanidade; se professamos essa fé, sabemos que o demônio não tem mais força sobre nossas vidas. O fato é que esse não era apenas um discurso; todos viam que os endemoniados eram curados e alguns destes estavam ali caminhando com o Mestre. No entanto, a dureza do coração dos escribas os induz a cometer um pecado imperdoável: blasfemam contra o Espírito Santo, ou seja, não aceitam que Jesus tem poder sobre o mal, recusando a salvação que Ele veio oferecer à humanidade. Pecar contra o Espírito Santo é, de forma decidida, não querer a Salvação. Jesus é o homem forte e bem armado que Deus colocou para proteger sua casa. A batalha que satanás estabeleceu com a humanidade desde as origens não tem força diante do poder e da humildade de nosso Salvador. Se o demônio vence no Gênesis pelo orgulho, semeando inimizade entre Deus e a humanidade, em Jesus o mal é vencido pela obediência, pela mansidão e pela humildade. Na moldura do nosso quadro, temos o tema da família de Jesus. Irmãos, a liturgia deste domingo nos faz sentir parte da família do Senhor. Lemos no evangelho: “E, olhando para aqueles que estavam à sua volta, disse: eis minha Mãe e meus irmãos. Quem fizer a vontade de Deus, esse é meu irmão, minha irmã e minha Mãe”. Se queremos vencer o mal que não está fora, mas dentro de cada um de nós, precisamos crescer no sentimento de família. Ser Igreja é muito superior a uma devoção intimista, pessoal. Ser Igreja é habitar em Cristo, formar comunidade, sentir-se parte do corpo do Senhor. O maior mal, onde o demônio tem se esbaldado em nosso tempo, chama-se divisão e, muitas vezes, essas realidades nascem em nossas sacristias. Criticamos a guerra, mas semeamos a discórdia no lar e em nossas comunidades. Rezamos pela paz, mas somos incapazes de resolver nossos conflitos, de pedir perdão. A qual voz estamos dando ouvidos? À voz familiar do Senhor que nos liberta, que nos chama à sua casa, que nos ensina a humildade e a mansidão, ou à voz da discórdia e do desamor? Sempre é tempo de voltar à casa. Neste domingo, fiquemos com essa bela imagem da casa do Senhor. Disse São Paulo na segunda leitura: “Bem sabemos que, se esta tenda (o nosso corpo), que é a nossa morada terrestre, for desfeita, receberemos nos Céus uma habitação eterna, que é obra de Deus e não é feita pela mão dos homens”. Que nosso corpo já comece, aqui e agora, a ser morada da liberdade, do perdão, da paz, da eternidade, do Senhor que servimos. Um santo e abençoado domingo a todos.