
O ano era 1969, em Coimbra, os murmúrios da revolta dos estudantes contra o fascismo que ainda sufocava Portugal já ecoavam baixinho pelas paredes da academia. Américo Thomaz, na altura o presidente da República, tinha acabado de discursar na cerimónia de Inauguração do edifício de Matemática. Alberto Martins, trajado de negro académico, aproveita o momento de silêncio para tornar a história sua com apenas uma frase: ‘Em nome dos estudantes da universidade de Coimbra, peço a vossa excelência para usar da palavra’. No entanto, quem tinha a palavra na altura não a quis dar. Segundo o protocolo, era a vez do Ministro das Obras Públicas subir ao palco. Não se ia inverter a ordem das coisas. No entanto, os estudantes de Coimbra naquele momento transformaram os murmúrios em aplausos e em gritos que exigiam uma coisa apenas “”Queremos falar!”. O presidente vindo a palavra sequestrada termina a sessão, pensando que a levara consigo. Mas os estudantes agora sabiam que podiam criar o seu próprio lugar de fala. Voltaram a encher o auditório, de megafone na mão denunciaram pela primeira vez os problemas da faculdade, da elitização da academia e da miséria que o país enfrentava. Alberto Martins passou a noite a ser interrogado pela PIDE, mas a palavra já estava na rua. Seguiu-se a famosa crise de 69, que se demonstrou uma arma essencial na luta contra o regime, um momento determinante na luta contra o Estado Novo. Inspirada pelos estudantes de Coimbra, a Brigada Estudantil vai pedir a palavra na sala que nós próprios criamos. Mas debaixo deste teto, a palavra não é uma arma para dividir e reinar, debaixo deste teto a palavra é partilhada. Pegamos no megafone, para dar a conhecer não só a história mal-contada do movimento social como também a história que se cria no presente, todos os dias, através de pessoas que estão na linha da frente e que tal como naquele dia em Coimbra, não esperam que lhe dêem a palavra para se fazerem ouvir e para continuarem na luta. Os habitantes regulares desta casa são alguns dos que montam o projeto da brigada diariamente.