
O acolhimento da Anunciação e o lugar da fé Delimitada à aceitação da obra salvífica de Deus, a maternidade de Maria não pode ocorrer sem fé; por isso a cena termina com essas palavras - eis aqui a serva do Senhor: faça-se em mim segundo a tua palavra - nas quais reconhecemos o ápice de todo comportamento religioso diante de Deus, pois Maria expressa, em maior grau, a disponibilidade passiva combinada com a prontidão ativa, o vazio mais profundo que acompanha a maior plenitude. Toda a tradição reforçará essa relação entre maternidade e fé ao ponto de fazer da maternidade uma forma singular de fé e do seguimento e da fé uma forma singular de maternidade. Crer é assim visto como acolher e doar Cristo, como gerá-lo na história humana. A obra da graça realiza-se no abandono de uma vida animada e guiada pela fé. Esta fé, que a Dei Verbum 5 apresentará como a atitude de quem se totum Deo libere committit (se confia livre e totalmente a Deus), deve ser bem compreendida: não é antes de tudo um ato de pensamento pessoal, uma criação da inteligência humana, mas a aceitação do pensamento divino e de um pensamento expresso concretamente na forma de uma palavra. Acreditar é abrir-se a esta palavra e receber todo o pensamento que ela manifesta. Maria é um modelo exemplar deste acolhimento: a sua escuta da Palavra, a sua conservação e meditação à imagem dos profetas e sábios do Antigo Testamento Todas estas caraterísticas permitem-nos fazer da sua peregrinatio fidei, peregrinação de fé, um modelo para o caminho de cada fiel. Cabe à Mariologia elaborar o extraordinário caminho desta figura que nos é dada em termos histórico-midráshicos, ou seja, através de uma história que pretende narrar o modelo central de vida de fé, trinitária e eclesial. O ENCONTRO DA PALAVRA COM MARIA Para desenvolver uma compreensão teológica do encontro entre a Palavra e Maria, não basta a simples narrativa bíblica: é preciso desenvolver teologicamente o encontro. Como se trata de um encontro, só será possível se este for totalmente pessoal. Somente as categorias pessoais nos permitirão respeitar a singularidade da figura de Maria e seu papel ao lado de Jesus. A Mãe enquanto modelo da filha de Sião, deve ser pensada não segundo modelos individualistas, mas segundo modelos comunitários e histórico-salvíficos. Comentando o termo cheia de graça, na Encíclica Redemptoris Mater 8, São João Paulo II capta uma síntese das revelações e promessas do Antigo Testamento; conclui assim que «no mistério de Cristo ela já está presente antes da criação do mundo como aquela que o Pai escolheu como a Mãe de seu Filho na Encarnação e, juntamente com o Pai, o Filho a escolheu, confiando-a ao Espírito de santidade».