
A ausência do sacro mariológico na Arte contemporânea Por milênios, a produção artística, reconhecida ou não como tal quando foi feita, foi encomendada, ou em qualquer caso nasceu na dependência de instituições ou autoridades religiosas. Essa consideração é válida não só para a história da arte ocidental, mas também para a de outras áreas culturais. Para o nosso Ocidente, o sagrado desaparece da produção artística, ou melhor, daquela considerada como tal em todos os estudos críticos e historiográficos mais confiáveis, entre o final do século XVIII e o início do século XIX, ou seja, com os primórdios da contemporaneidade. Não foi um desaparecimento repentino, mas o ponto final de um caminho que começou no início do século XIV com o surgimento, ao lado de temas até então exclusivamente sagrados, e belos por excelência, nas artes, de temas civis e seculares e mitológicos fazendo confluir cânones temáticos com o universo filosófico clássico. Esses últimos temas ocuparam gradualmente, mas incansavelmente, todos os campos da arte. Restou um pequeno espaço para o sagrado na arquitetura, no sentido de que importantes, ainda que numericamente muito modestas, experiências de produção nesse campo ainda ocorreram nos séculos XIX e XX e hoje no século XXI também a arquitetura vai-se degradando no seu sentido de transcendência até ao ponto de diluir uma orientação religiosa nas ornamentações de alguns espaços sagrados, até porque devemos fazer a pergunta: se a arte é expressão do espírito, pode um ateu ou agnóstico desenhar uma Igreja? A resposta negativa é óbvia. Nas outras artes, figurativas e literárias, a presença do sagrado desapareceu completamente nos últimos dois séculos, deixando espaço para uma escalada de interesse sobre a transcendência sem revelação, sem Deus, sem encarnação, sem direção. O puro sentimento efêmero substituiu a capacidade de raciocinar com fundamentos! A pergunta óbvia que sempre foi feita é: por que isso aconteceu? Por que temas relacionados à religião, ao culto, ao divino, por tanto tempo sinônimos ou fontes de beleza, deixaram de inspirar os artistas? Por que o sagrado não era mais considerado representável, ou digno de representação, ou capaz de ser representado?