
A grande maioria das mais antigas representações marianas sobreviventes pertence a ambientes “funerários” romanos: pinturas nas catacumbas, relevos em sarcófagos, pequenos objetos encontrados nas mesmas salas. No entanto, a proveniência quase exclusivamente romana destes documentos não deve ser enganosa; de fato, as pesquisas arqueológicas realizadas neste século e ainda em andamento em áreas até então pouco estudadas, em particular no Egito e no Oriente Médio, sempre trazem novas evidências que enriquecem o conhecimento do repertório figurativo mariano e evidenciam a sua profunda homogeneidade. Em geral, pode-se dizer que os temas em que a Virgem Mãe aparece pertencem ao ciclo histórico da infância de Jesus - como a Adoração dos Reis Magos, Anunciação e a Natividade com a Adoração dos pastores. Muitas vezes esses assuntos são encontrados combinados - dentro de um único ambiente funerário ou na frente de um sarcófago - com outras cenas que representam salvações operadas por Deus no Antigo ou no Novo Testamento. No entanto, também há representações marianas que não estão vinculadas a um evento histórico específico e cujo significado é primorosamente doutrinário: assim a Virgem com o Menino e um profeta de Priscila, o tipo da Virgem orante dos fundos da taça. Cenas do ciclo da Infância: a Adoração dos Magos Nas catacumbas de Priscila, a Adoração dos Magos (século III) [fig. 1] aparece na parede externa acima da porta de entrada da Capela Grega. A Virgem é retratada de cabeça descoberta, vestida com uma túnica sem mangas e sem cinto, ela está sentada em meio perfil à direita da cena em uma cadeira sem encosto. Segura com ambas as mãos o Menino envolto em panos e de frente para os três Reis Magos que avançam da esquerda, vestidos com túnicas curtas e segurando os presentes com os braços estendidos. Mesmo que o esquema composicional seja muito simples, vale destacar a importância que o dinamismo das três figuras caminhando para a direita confere ao grupo da “Virgem com o Menino”. Em Roma, e no mundo antigo em geral, a boa educação exigia que as mulheres casadas mantivessem a cabeça coberta em público. Para isso, podiam levantar uma aba do manto (chamado palla em Roma) ou, para maior comodidade, usar um véu ou lenço (em latim: velum, em grego: maphorion). As virgens antes do casamento, por outro lado, saíam com a cabeça descoberta. No meio cristão, Tertuliano em particular na De cultu feminarum, nos informa que as virgens consagradas usavam o véu como as mulheres casadas e que era considerado mais conforme à modéstia cristã do que se as mulheres prometidas já estivessem veladas. O fato de que nas catacumbas a Virgem Maria muitas vezes aparece de cabeça descoberta pode ser uma forma de indicar simbolicamente sua integridade virginal. Com a sua localização privilegiada, esta Adoração dos Magos constitui também visualmente a chave de leitura da multiplicidade de cenas de salvação do Antigo e do Novo Testamento representadas no interior da Capela: Daniel, Noé, Susana, os três jovens na fornalha, o sacrifício de Abraão, Moisés que faz brotar água da rocha; a multiplicação dos pães, a ressurreição de Lázaro.