
Esta celebração mariana teve uma história um tanto agitada pelo fato de sua origem não ser histórica. Na verdade, baseia-se na narração do Protoevangelho de Tiago, no qual se conta que Maria, aos três anos de idade, é levada ao templo por seus pais e consagrada ao serviço do Senhor. A festa, hoje memória obrigatória, teve origem na dedicação da Igreja de Santa Maria Nova, construída em Jerusalém junto ao templo. No século VIII já era comemorado em todo o Império Bizantino. No Ocidente começou a ser celebrado em Avignon com Gregório XII (m. 1417). Antes de ser celebrada universalmente, teve que superar as incertezas, até que Sisto V (m. 1590) dotou a celebração de um caráter mais comedido biblicamente falando. Visto que esta celebração goza do favor do povo, a Igreja achou por bem deixá-la também na nova disposição da Liturgia das Horas. O conteúdo teológico, que traz consigo também a lenda do Protoevangelho de Tiago, e o fato de que Maria, Kekaritomene, cheia de graça, viveu de modo a responder a esta graça, fiel à sua eleição, a serviço de Deus em todos os momentos da existência dela. Pode haver outro fato relacionado a isso: a piedade popular, contemplando tal santidade e elevação de graça, pensou que tal criatura poderia ser preservada em sua santidade apenas vivendo no templo do Senhor. O santuário do Espírito Santo A liturgia deste memorial não tem uma fisionomia precisa. Talvez por preocupação de não dar muito espaço a visões subjetivas, a linguagem utilizada é desprovida de referências específicas. O texto mais adequado é a antífona do Magnificat das vésperas da festa que ecoa o Sedulius no Praeconium: «Santa Maria, Mãe de Deus, Virgem gloriosa, templo do Senhor, sacrário do Espírito Santo! Só Vós agradastes plenamente a Nosso Senhor Jesus Cristo». Antes de chegar à sua tarefa de Mãe do Senhor, Maria passou a sua vida no templo, isto é, diante de Deus, nesta atitude amadureceu o que o Senhor fez nela na Imaculada Conceição. A imagem do templo, para além da lenda do Protoevangelho de Tiago, situa o que Deus fez em Maria num determinado contexto histórico. Por isso também é preciso repensar o que era o templo para o povo de Israel.