
O Coração de Maria no segundo milênio A primeira oração dirigida ao coração de Maria surge no século XII: o beneditino alemão Egberto de Schönau (m. 1184), irmão da famosa vidente Isabel de Schönau (m. 1165), deixou-nos uma oração que não se dirige apenas a Maria, mas ao seu coração, que de certa forma se personifica: Loquar ad cor tuum, o Maria Falarei ao teu coração, ó Maria mundum limpo immaculatum imaculado sanctum e amatissimum santo e amabilíssimo Que cada alma te engrandeça, ó mãe de doçura, e que toda língua de povos piedosos exalte para todo o sempre a bem-aventurança do teu coração, do qual brotou a nossa salvação Alguns séculos mais tarde, encontramos o pioneiro indiscutível da devoção e do culto litúrgico ao Coração de Maria, São João Eudes (m. 1680). Mas já alguns séculos antes do grande reformador da vida religiosa da França no século XVII, vislumbram-se os traços de uma devoção privada cada vez mais intensa ao Coração de Maria, combinada sobretudo com a devoção ao Coração de Jesus, que encontra inspiração no desenvolvimento dos fundamentos bíblicos comentados pelos Padres da Igreja e autores eclesiásticos. Uma frase de Ricardo di s. Lorenzo merece destaque: «Ex corde b. Mariae Virginis processerunt fides et consenso, per quae duo initiata est salus mundi». [a partir do Coração da Bem Aventurada Maria Virgem procederam a fé e o consenso, por ambos iniciou a salvação do mundo]. No início do século, XIII, S. Boaventura assim formula o tema: «Quia ergo corde concepit verbum fidei, ventre concepii Filium Dei». [Este é o coração que concebeu na fé o Verbo e no ventre o Filho de Deus]. Santa Geltrude de Helfta e sua escola elaboram uma espiritualidade primorosa a partir destas idéias: «Videbatur blandus die ac floridus puellulus, aeterni Patris Filius unicus, cor Matris Virginis cumma voluptate sugere. Quo dabatur intellegi, quod sicut Christi humanitas virgineo lacte nutriebatur, ita eius divinitas suavissime in hoc inocenteissimo et amantissimo corde conquiescebat eoque frui delectabatur» [Vi um dia um menino suave e animado, o único Filho do Pai eterno, surgir no coração da Virgem Mãe com grande prazer. O que me levou a entender que, assim como a humanidade de Cristo foi nutrida pelo leite virgem, sua divindade foi mais docemente conquistado neste coração puríssimo e amoroso, e se deleitou em desfrutá-lo]. Esta particular forma de relação com Maria foi também nutrido pelas revelações particulares especialmente de algumas místicas Santa Matilde (m. 1299), e Santa Brígida (m. 1373), e manifesta-se em várias orações e práticas de piedade, particularmente frequentes no final da Idade Média.