
FOME Eu procurei entender qual a receita da fome, quais são seus ingredientes, a origem do seu nome. Entender também por que falta tanto o “de comê”, se todo mundo é igual, chega a dar um calafrio saber que o prato vazio é o prato principal. Do que é que a fome é feita se não tem gosto nem cor não cheira nem fede a nada e o nada é seu sabor. Qual o endereço dela, se ela tá lá na favela ou nas brenhas do sertão? É companheira da morte mesmo assim não é mais forte que um pedaço de pão. Que rainha estranha é essa que só reina na miséria, que entra em milhões de lares sem sorrir, com a cara séria, que provoca dor e medo e sem encostar um dedo causa em nós tantas feridas. A maior ladra do mundo que nesse exato segundo roubou mais algumas vidas. Continuei sem saber do que é que a fome é feita, mas vi que a desigualdade deixa ela satisfeita. Foi aí que eu percebi: por isso que eu não a vi olhei pro lugar errado ela tá em outro canto entendi que a dor e o pranto eram só seu resultado. Achei seus ingredientes na origem da receita, no egoísmo do homem, na partilha que é malfeita. E mexendo um caldeirão eu vi a corrupção cozinhando a tal da fome, temperando com vaidade, misturando com maldade pro pobre que lhe consome. Acrescentou na receita notas superfaturadas, um quilo de desemprego, trinta verbas desviadas, rebolou no caldeirão vinte gramas de inflação e trinta escolas fechadas. Sendo assim, se a fome é feita de tudo que é do mal, é consertando a origem que a gente muda o final. Fiz uma conta, ligeiro: se juntar todo o dinheiro dessa tal corrupção, mata a fome em todo canto e ainda sobra outro tanto pra saúde e educação. Braulio Bessa