
Deixa eu ser brutalmente honesto com você. Eu quase caí na armadilha. Essa semana, no meio de uma conversa de trabalho, o assunto surgiu. Você sabe qual. O caso do Padre Fábio de Melo. Todo mundo estava falando. As redes sociais pegando fogo. Milhões de católicos dando suas opiniões. E eu comecei a falar também. Comecei a dar minha opinião. A julgar. A me posicionar sobre algo que, na verdade, eu não tinha o menor direito de opinar. Até que me dei conta: Meu Deus, o que estou fazendo? Eu, como cristão católico, não posso fazer isso. Primeiro porque é a figura de um padre. Segundo porque quem sou eu para julgar o que está acontecendo ali? Me calei. Mudei de assunto. Mas quase escorreguei nessa casca de banana. E aqui está a verdade que dói: é muito fácil a gente escorregar. Obrigado por ler! Assine gratuitamente para receber novos posts e ajudar o meu trabalho. A Pergunta Que Ninguém Quer Responder Então deixa eu te fazer algumas perguntas desconfortáveis: Você comentou algo sobre o caso do Padre Fábio de Melo essa semana? Você deu sua opinião no grupo do WhatsApp da família? Você curtiu algum post “cancelando” ele? Você compartilhou algum meme, alguma mensagem, alguma crítica? Se a resposta for sim para qualquer uma dessas perguntas, preciso te dizer algo: Você quebrou um dos mandamentos mais importantes que Jesus nos deu. E eu também quase quebrei. Por isso trouxe esse tema para o programa de hoje. Não para falar do caso específico - isso não importa. Mas para falar sobre nós mesmos. Sobre o que essa situação ensina sobre a dificuldade que temos de viver o perdão que pregamos. Sobre como católicos e cristãos se envolveram nessa onda de julgamento de uma forma que deveria nos envergonhar. O Que Jesus Disse (E Que Nós Ignoramos) Tem uma conversa famosa entre Jesus e Pedro que está em Mateus 18:21. Pedro pergunta: “Senhor, quantas vezes devo perdoar meu irmão se ele pecar contra mim? Até sete vezes?” E Jesus responde algo que deve ter chocado Pedro: “Não te digo até sete, mas até setenta vezes sete.” Setenta vezes sete. Obviamente não é um número exato. É uma forma figurativa de dizer: o perdão deve ser ilimitado, constante, sempre disponível. Sabe por que Pedro perguntou isso? Porque ele e Mateus tinham um rançozinho no começo. Pedro não achava certo Mateus estar ali - afinal, Mateus era coletor de impostos, trabalhava para o Império Romano contra os judeus. Pedro não concordava. Achava errado. Queria saber: até quando tenho que perdoar esse cara? E Jesus deixa claro: sempre. Não importa o que ele fez. Não importa quantas vezes. Sempre. A Regra do Mundo Digital Mas no mundo que vivemos hoje, especialmente no mundo digital, a regra parece ser outra. Ao invés de perdoar 70 vezes 7, a regra é: errou uma vez, está cancelado. Não há espaço para: * Arrependimento * Reparação * Mudança * Contexto * Verdade completa A pena é imediata: exclusão pública, humilhação, perda de reputação, pessoas falando de todas as áreas da vida daquela pessoa. E tudo isso porque na visão delas a pessoa errou. Isso é algo muito sério, meus queridos. Porque nossas palavras têm peso. Têm impacto. Um comentário maldoso, um julgamento precipitado pode destruir a vida de uma pessoa. Pode afetar: * Saúde mental * Trabalho * Relações familiares * Tudo A Verdade Que Ninguém Considera Quando você escreve algo na rede social achando que é só um desabafo, que precisa dar sua opinião, que está ofendendo ou julgando alguém sem ter o menor direito... Você não sabe como a pessoa do outro lado receberá essa informação. Nós não temos controle sobre isso. Cada um recebe a informação na emoção que está vivendo no momento. Às vezes a pessoa já está: * Se sentindo culpada * Num estado depressivo (não a doença, mas triste, introspectiva) * Vulnerável * Fragilizada E ao receber mensagens de julgamento, com milhões de pessoas falando porque têm uma necessidade de falar, aquilo pode afetar gravemente a saúde mental. O próprio Padre Fábio de Melo, alguns dias depois, falou que isso o afetou profundamente. Ele já expôs muitas vezes que passou por casos de depressão, sofreu bastante. E que ficou surpreso e impactado. E eu não tiro a razão dele. Porque ele é um ser humano. Como todos nós somos. E a gente se afeta com isso. A Pergunta Que Devemos Fazer Então preciso que você pare e pense: Qual é o seu papel nesse cenário? Quando você se encontra com uma situação assim (e não é só o caso do Padre - isso acontece TODOS OS DIAS): Você vai sentar na casa da sua mãe, do seu pai, da sua avó, do vizinho, e começar a falar, julgar a filha da vizinha que fez alguma coisa? Vai dar sua opinião sobre o casamento da cunhada? Sobre a vida do fulano no trabalho? É a mesma coisa. Numa intensidade menor, mas é a mesma coisa. Então te pergunto: Nós somos chamados a ser parte da multidão que apedreja? Ou somos convidados a ser a voz que clama por misericórdia? O Que Jesus Disse (Parte 2) Lucas 6:37 é cristalino: “Não julgueis e não sereis julgados. Não condeneis e não sereis condenados. Perdoai e sereis perdoados.” Isso não significa que devemos ser coniventes com erro ou pecado. A correção fraterna é importante. Mas ela deve ser feita: * Com amor * Em particular (se você tem intimidade) * Buscando a recuperação da pessoa * NÃO a destruição A Parábola Que Mudou Minha Perspectiva A parábola do filho pródigo (Lucas 15) é um retrato perfeito da misericórdia de Deus que deveríamos seguir. O filho: * Saiu de casa * Esbanjou tudo * Errou feio Mas ao voltar, o pai o recebe de braços abertos. Sem cobrança. Sem humilhação pública. Ele celebra o retorno, a vida que foi reencontrada. É essa atitude que é esperada de nós como cristãos. Uns com os outros. Especialmente no nosso principal canal de comunicação hoje: os meios digitais. Uma Analogia Poderosa A Igreja, as comunidades online, tudo isso deveria funcionar como um hospital de campanha. Aqueles hospitais de guerra onde os feridos são acolhidos, cuidados, e não são julgados pelo tipo de ferida que têm. Mas essa cultura do cancelamento transforma tudo num tribunal sumário. Onde a sentença é dada sem julgamento justo, sem oportunidade de defesa. E a pena? Exclusão. Como Saber Se É Justo Ou Julgamento? Antes de compartilhar qualquer crítica, de dar um “curtir” no comentário maldoso, de participar dessa onda... Faça estas perguntas: 1. Isso é verdade? * Eu tenho todos os fatos? * Ou só vi manchetes, prints, rumores? 2. O que minha atitude vai ajudar? * Estou construindo ou destruindo? * Estou agindo por amor ou por impulso? 3. Por que estou fazendo isso? * É raiva? * Inveja? * Para me sentir superior? * Para mostrar ao mundo como sou uma pessoa “boa”? Deixo essas perguntas para você refletir. E estou fazendo as mesmas perguntas para mim. 6 Práticas Para Viver Isso No Dia a Dia Como aplicar tudo isso no cotidiano, especialmente nesse mundo digital? Não é fácil viver o evangelho na prática. Olhar o outro como irmão em Cristo exige muito esforço, muita graça de Deus. Mas é possível. Desde que você queira. Como minha avó Celina dizia (talvez a sua também diga): “Quando um não quer, dois não brigam.” O primeiro passo é querer. Aqui vão 6 práticas concretas: 1. O Filtro da Caridade Antes de postar, comentar, compartilhar algo, passe pelo filtro. Filipenses 4:8 diz: “Ocupem-se com tudo que é verdadeiro, nobre, justo, puro, amável, honroso, virtuoso ou de qualquer modo mereça louvor.” Pergunte-se: * ✅ Isso é verdadeiro? * ✅ É nobre o que estou fazendo? * ✅ É justo? * ✅ É puro? * ✅ É amável? * ✅ É honroso? * ✅ É virtuoso? * ✅ Merece louvor? Se o que você quer fazer não passar nesses filtros, simplesmente não faça. Não vai agregar nada. Não tem sentido. 2. A Pausa da Oração Muitas vezes agimos por sequestro emocional. Nosso corpo é perfeito - Deus o fez com um sistema de resposta rápida para emergências. Você não precisa pensar muito, simplesmente age para salvar sua vida. Mas hoje nos colocamos em situações de “sequestro emocional” onde não há emergência nenhuma. Simplesmente porque estamos emocionados. Quando você lê algo que te deixa com raiva, que quer te fazer responder à altura... Pare. Respire. Reze uma Ave Maria ou um Pai Nosso. Peça a Deus sabedoria e calma. Só essa pequena pausa - quando você se conecta com o divino - te ajuda a sair do sequestro emocional. E pode evitar que você diga ou faça algo de que se arrependerá depois. 3. Comentários Edificantes Mesmo numa situação onde parece que é fácil criticar, como trazer isso para uma conversa edificante? Em vez de focar nos erros alheios, use a conversa para edificar. Traga: * Elogios * Incentivos * Olhar positivo Seja a luz no meio de tanta escuridão. 4. Perdão Silencioso Às vezes não é possível (ou apropriado) colocar seu perdão publicamente. Mas isso não é o mais importante. O mais importante é o que seu coração está sentindo. Qual é sua paz em relação à situação? Se alguém te feriu online, se você é a pessoa sendo cancelada... Reze pelas pessoas que estão fazendo isso. Entregue a situação a Deus. O perdão liberta você do peso do ressentimento. 5. O Poder do Silêncio Entenda uma coisa muito importante: Nem sempre sua opinião é necessária. Você não precisa (nem eu preciso) ter opinião sobre tudo. Seu comentário sobre o caso do Padre lá nas redes sociais não era extremamente necessário. Foi necessário para você - porque sentiu que precisava extravasar. Mas não tinha nada a ver com a outra pessoa. Tem mais a ver com a forma como você se vê, como se sentiu ao receber aquela informação. E não agregou nada à outra pessoa. Muitas vezes (e vou jogar real aqui): é melhor não dar nossa opinião. Porque ela não vai fazer diferença. Não vai edificar. Só vai inflamar e piorar a situação. Às vezes, ficar em silêncio é a melhor resposta. 6. Correção Fraterna Em Particular Quando convém fazer correção fraterna (alguém que você tem intimidade, responsabilidade sobre, como irmão, filho, alguém próximo que você mentora)... Isso deve ser feito de maneira particular. Não no grupo do WhatsApp da família. Mateus 18:15 diz: “Se teu irmão pecar, vai corrigi-lo em particular.” Numa ligação. Num contato pessoal. Uma mensagem direta, se a pessoa estiver longe. Com respeito. Com amor. Buscando o bem dela, não humilhá-la. Nós já recebemos essa orientação. Mas nos esquecemos de cumprir. A Verdade Sobre Redes Sociais “Max, mas hoje tudo é fofoca nas redes sociais!” É fofoca porque você está consumindo fofoca. As redes sociais têm algoritmos. Quando você olha algo e fica mais tempo consumindo aquilo, elas começam a te mostrar mais daquilo. Faça este exercício: Pegue seu celular agora. Vá no Instagram ou TikTok. Entre na aba “Explorar”. Que tipo de conteúdo aparece? Porque o tipo de conteúdo que aparece ali me diz muito sobre o que você consome no dia a dia. E isso me dá sinais de como você é. Se só aparecem páginas de fofoca, das vidas alheias, dos casamentos dos famosos... Talvez você esteja com seu próprio casamento devastado enquanto cuida do casamento da famosa que separou pela décima vez. Às vezes estamos acima do peso e julgamos outro que também está acima do peso. Muito cuidado. O Que Acontece Quando Mudamos Quanto mais você trabalha isso, vai perceber que começa a mudar o comportamento ao seu redor. Tem pessoas que gostam de conversa, de ficar falando de outras pessoas. Mas quando estão ao meu redor, não dou trela para esse tipo de assunto. E o assunto não flui. Ou não flui na mesma intensidade que fluiria em outros ambientes. Nós somos responsáveis pelos assuntos e pelo que as pessoas falam ao nosso lado. Inclusive nas redes sociais. Você dá o limite da conversa que tem ao seu redor. A Prisão e a Liberdade Estar na onda da cultura do cancelamento nos aprisiona num ciclo de ressentimento. O perdão - quando aprendemos a liberá-lo, quando entendemos que não precisamos dar opinião sobre tudo - nos liberta. Para o futuro. Para a esperança. Para a reconciliação. Não apaga o histórico das coisas, mas ressignifica, transforma o significado do que aconteceu. Essa cultura do cancelamento é como um espelho quebrado que reflete só fragmentos distorcidos da pessoa. O perdão, a cultura cristã, é como um bálsamo que cura as feridas. Que permite que as pessoas vejam novamente a imagem por inteira - aquela imagem amada por Deus. Se Você Está Carregando Um Peso Talvez você esteja carregando: O peso de ter sido cancelado * Na família (mesmo sem ser famoso) * Família falando mal nas esquinas * Te isolando * Amigos te excluindo O peso de ter cancelado alguém * De ter falado mal * De ter julgado * De ter escrito coisas terríveis O peso da mágoa profunda * Causada por palavras que você escreveu * Ou palavras que escreveram sobre você Jesus te convida hoje a experimentar a liberdade do perdão. Essa é a cura para quem passa por essas situações. Busque: * O sacramento da confissão * Conversa com um sacerdote * Um amigo na fé Mas não carregue esse fardo sozinho. As Perguntas Que Você Precisa Responder Para levar para a semana: 1. Quem você precisa perdoar hoje? * No mundo real ou virtual * Pense nisso * Reze sobre isso * Tome uma atitude (por menor que seja) 2. Para quem você precisa pedir perdão? * Pense nisso * Reze sobre isso * Tome uma atitude (por menor que seja) Uma Oração Para Você Antes de terminar, quero fazer uma oração. Fecha os olhos. Respira. Concentra. Senhor Jesus, manso e humilde de coração: Nos ensine, Pai, a perdoar como Tu perdoas. Liberta-nos da tentação desse julgamento rápido, dessa cultura do cancelamento que vivemos. Que nossas palavras - ditas pessoalmente ou online - sejam sempre temperadas pela caridade e pela verdade. Peço que nos ajude a construir pontes de diálogo e reconciliação nesse mundo digital. Que possamos ser reflexo da Tua misericórdia, seguindo Teu exemplo, para que todos que encontrarmos - pessoal ou online - tenham esse exemplo em mente. Que o Senhor permita curar as feridas causadas por nossas palavras e nos ajude a curar as feridas nos outros que talvez tenhamos causado. Que Maria, Mãe da Misericórdia, interceda por nós e vá na frente preparando o caminho. Amém. A Verdade Final Deixa eu te dizer algo muito importante para terminar: O amor de Deus é maior que qualquer erro. E maior que qualquer cancelamento. Então seja arma do amor. Não arma do cancelamento. E lembre-se: Deus sempre nos oferece uma nova chance. Mesmo quando o mundo diz que não há mais volta. Mesmo quando milhões de pessoas julgam. Mesmo quando parece que tudo está perdido. Deus sempre, sempre, sempre oferece uma nova chance. Porque Ele nos ama. Incondicionalmente. E nos convida a fazer o mesmo com os outros. Este texto é baseado no programa Fé em Sintonia, da Rádio Cantate FM 104.5, apresentado por Max Pena. Que Deus abençoe sua semana com muito perdão e muita misericórdia. E lembre-se: você não precisa dar opinião sobre tudo. 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