
Gostaria de te acordar com beijos e boas notícias – o sol saiu, os pássaros comemoram, as crianças brincam no pátio, vem visita de longe, ninguém mais vende seu trabalho, ninguém manda sem trabalhar. Mas o inimigo ainda é soberano, está por todos os lados e dentro de nós. Nos submete e inverte todas as coisas: nosso suor vira seu produto, uma pequena parte vira o nosso preço e não conseguir ficar rico vira um fracasso individual. Cultura vira ideologia, cooperação vira concorrência, nosso amor vira controle, sexo vira violência. O que era tempo vira trabalho, o que era nosso vira alheio, o que era história vira esquecimento. Gostaria de te acordar com carícias e boas notícias, mas ainda há muito para ser feito. Estamos cansados, você diz, foram tantas derrotas… somos poucos e estamos pior do que antes, o inimigo matou os que não pôde cooptar. Gostaria de te consolar com um abraço e boas notícias, mas você tem razão – somos poucos e estamos cansados, no entanto ninguém, senão nós, poderá fazê-lo. Nós, com todos os nossos defeitos, com nosso cansaço, com as marcas da derrota, com nossos mortos por vingar. Com toda a escuridão por cima dos ombros nos curvando, com a potência de derrubar toda ela ao levantar. (Golondrina Ferreira)