
O fato de o Eu ser uma aquisição tardia relativamente à experiência. O fato de a noção do Eu, na criança, somente advir após ela, primeiro, ter vivido, do zero aos cinco anos, a experiência. Faz com que ela esteja sempre atrasada relativamente à experiência. A criança não vem, desde o momento do seu nascimento, com um Eu gerenciando a experiência que está vivendo. Ela vai adquirindo a linguagem até que consiga, por si mesma, se haver com a experiência que viveu e que irá viver. Essa aquisição tardia da noção de Eu, um Eu que se protege por amor a si mesmo, faz com que daí por diante a vida seja sempre uma revisão da experiência vivida. O sujeito vai para a frente olhando para trás. Ele somente sabe que está enganado depois que se enganou. Ou percebe depois que foi enganado. O amor a si mesmo faz com que ele trabalhe para o outro tendo como estímulo e remuneração apenas elogios. O elogio anima o Eu da pessoa, que fica feliz, e trabalha mais ainda, para continuar sendo elogiado. Byung-Chul Han, em Sociedade do Cansaço, afirma que o sujeito pós-moderno tem uma psique diferente do tempo de Freud. Hoje vivemos, afirma com razão o pensador, numa sociedade da positividade patológica, onde seria proibido reprimir. Na sociedade do elogio, só se pode elogiar o Ego Essa é uma forma muito habilidosa de reprimir mais ainda: O sujeito uberizado é feito de idiota, e não percebe. Freud havia se enganado a respeito do amor no Narcisismo: somente em 1914 ele percecebeu o erro dele. E Byung-Chul Han, ao que parace, assim como Freud, também errou quanto ao Narcisismo. A repressão continua sendo a mesma do tempo de Freud, só que de modo invertido: Elogiar é uma forma de manter o idiota reprimido achando que está tendo muito sucesso.