
O Eu não se enxerga naquilo que fala. Nem Freud se via naquilo que ele falava. Considerando a posteridade do seu Narciso como “homem célebre”, informou em carta a Fliess em 1900 que gostaria de uma placa de mármore em seu túmulo para que o visitante lesse que ali jazia o homem que desvendou a ciência dos sonhos. Ele percebia interesse pessoal na construção da teoria psicanalítica, mas não compreendia, claramente, o sentido do vocábulo “Narcisismo”. Foi através do psiquiatra Jung que o conheceu quando aceitou a incumbência de analisar o livro de Schreber. Jung sabia que em Schreber a teoria da libido falhava: na loucura, a libido de objeto recua para o Eu. O louco vive fora da realidade. Jung, então presidente do movimento psicanalítico, queria a prova escrita de que o seu Mestre estava errado e recolheu um fragmento do “Caso Schreber” em que Freud deixa claro o seu erro, e o trouxe para o seu livro, levando a público o erro de Freud. Há muita gente que vive fora da realidade, não somente o louco. Por exemplo, quem segue Ideologia pode eliminar um amigo em função do Ideal que segue. Freud compreendeu que a libido de objeto coincide com o Eu também nas pessoas comuns devido ao Narcisismo estrutural que se origina na infância. Freud finalmente compreendeu mais claramente o verdadeiro sentido do vocábulo Narcisismo que circulava apenas no meio psiquiátrico. Introduziu na psicanálise o conceito de Narcisismo informando em carta a Karl Abraham ter sido “um parto difícil”. Foi difícil parir o artigo sobre o Narcisismo porque significava a admissão de seu erro com a teoria. O Narcisismo presente no sujeito não percebe o seu Narciso atuando naquilo que ele faz: neste ponto é que estaria a verdadeira divisão subjetiva, a “esquizo do Sujeito”, “o sujeito dividido”, o “sujeito castrado”. O Sujeito jamais veria a sua própria Autoimagem situando-se do lado de fora de seu próprio corpo. Esse é o ponto cego que estrutura o Narcisismo do cidadão comum.