
Um índio da floresta amazônica foi levado por um antropólogo para visitar a cidade de São Paulo. O índio mal conseguia acreditar no que via: edifícios com dezenas de andares, o asfalto escondendo a terra, o ritmo frenético das pessoas, indo e vindo. Espantou-se também com o ruído difuso das vozes humanas, dos automóveis e aviões. Para ele foi difícil entender a pressa de todos, falando em voz alta, oferecendo produtos, os cartazes coloridos e os estridentes aparelhos de som. Naquele cenário confuso e barulhento, o índio - finalmente – fez uma observação: ouço o cri-cri de um grilo. E antes que o amigo dissesse que era impossível escutar um grilo naquela confusão, o índio tomou-o pela mão e o levou para um pequeno canteiro de flores e lá estava o grilo. Diante do espanto do guia, o índio pediu algumas moedas. Jogou-as na calçada e, imediatamente, muita gente se voltou para o local, tentando apossar-se das moedas. E o índio explicou: escutei o grilo porque estou acostumado a este tipo de ruído. Para muitos é mais fácil escutar o tilintar das moedas. Nosso mundo é um mundo doente, contaminado pelo ruído e pela pressa. Estamos sempre correndo, quase sempre, atrás do dinheiro. E com isso esquecemos a gratuidade e a qualidade de vida. No passado, muitos dirigiam-se ao deserto para escutar a voz de Deus. Naquelas paisagens de areias infinitas, agitadas pelo vento, castigas pelo sol, os apelos do mundo perdem a importância. O deserto deixa Deus ser Deus. Mas nós não podemos fugir para o deserto. Nossa missão é no meio do mundo, em meio à confusão e à pressa desta Babel moderna. Este deserto deve acontecer dentro de nós. Um espaço de silêncio nos ajudará a entender os sinais dos tempos e o sentido de nossa caminhada.