
Da matéria vulcânica de Cabo Verde aos arquivos coloniais de Moçambique, passando pelas mulheres africanas apagadas da fotografia europeia e pela crítica política de Nu Barreto, a 11.ª edição da AKAA reúne em Paris obras que interrogam memória, identidade e poder. A feira de arte contemporânea e design africano decorre de 23 a 25 de Outubro no Carreau du Temple, em Paris. Para Amadeu Carvalho, estrear-se na AKAA é também levar Cabo Verde para fora do arquipélago. Na série "Retratos da ausência", o artista cabo-verdiano trabalha com pigmentos produzidos a partir de matéria vulcânica recolhida nas ilhas, num processo em que a matéria se cruza com a memória, a identidade e a experiência da diáspora. "É trazer as minhas memórias, trazer um pedaço de Cabo Verde para outros públicos", explica. A distância tornou-se, para o artista, uma forma de aproximação: "Para ver a ilha tens de estar fora da ilha." E a própria criação assumiu uma dimensão íntima: "É um processo de cura." Os rostos que Amadeu Carvalho pinta transportam essa relação entre presença e ausência. Em "Sentinela do Fogo", a forma remete para o vulcão da ilha do Fogo e a figura surge como um guarda: observa, protege, mas lembra também que "a qualquer momento as coisas podem mudar". O olhar atravessa toda a série e não é construído a partir de uma narrativa previamente fechada. "A pintura é uma descoberta", diz o artista. A última camada de pigmento vulcânico acaba frequentemente por definir a expressão final da obra. E, quando o quadro sai do atelier, deixa também de pertencer inteiramente a quem o criou. "A obra deve ser terminada pela pessoa que a vê", defende. Essa procura pela representação tem uma dimensão particularmente pessoal quando Amadeu Carvalho fala das mulheres. Cresceu, conta, "numa casa cheia de mulheres" e considera que "elas são o coração de Cabo Verde". Mas a questão ultrapassa a sua própria obra. O artista defende que chegou o momento de retirar rótulos e fazer com que artistas africanos ocupem os grandes museus pelo valor do trabalho que produzem. Recorda uma visita a um museu com a filha, que lhe disse não se sentir representada. "Os nossos filhos querem ver essas obras", sublinha. Também de Moçambique chega uma reflexão sobre ausência e memória. A galeria Arte de Gema, de Maputo, escolheu a AKAA para apresentar dois artistas emergentes, Mulalene e Thandi Pinto. Élia Gemuce explica que a participação em feiras internacionais responde a uma necessidade concreta, "temos um panorama artístico bastante rico, mas que carece de mais visibilidade." No trabalho de Mulalene, uma planta, a polyscia, torna-se depósito de memória familiar. Depois de o corpo do avô ter sido trasladado do quintal da família para um cemitério municipal distante, a planta ocupou simbolicamente o seu lugar e passou a acompanhar fotografias e momentos de várias gerações. Thandi Pinto parte, por sua vez, dos arquivos coloniais dos países de língua portuguesa. Não pretende rejeitá-los, explica Élia Gemuce, mas "questionar e trazer outras narrativas". A artista apropria-se de fotografias históricas, intervém sobre elas e altera os códigos através dos quais foram arquivadas e interpretadas. Numa imagem de uma equipa de futebol composta por portugueses em Moçambique, substitui os rostos por máscaras mapiko e introduz elementos de identidade moçambicana. Noutras obras, parte do que o arquivo deixou por explicar, quem eram aquelas pessoas, por que razão foram fotografadas e que conhecimento se perdeu quando ficaram reduzidas a uma legenda institucional. É um exercício de "reescrever a história", resgatar o material e voltar a interrogá-lo fora do olhar que originalmente o classificou. O arquivo e a ausência atravessam igualmente "BLOOM", projecto da artista neerlandesa Dagmar van Weeghel apresentado pela galeria portuguesa This Is Not a White Cube. A galerista Sónia Ribeiro descreve um trabalho centrado nas mulheres negras que ficaram ausentes das instituições e das narrativas visuais do século XIX. Dagmar Van Weeghel recupera técnicas fotográficas antigas, cartas de visita, objectos, vestuário e flores para colocar mulheres da diáspora africana de hoje em diálogo com figuras esquecidas do passado. O contraste entre imagens concebidas para durar e outras destinadas a desaparecer torna-se, ele próprio, uma pergunta sobre a memória, quem decide o que permanece e o que é esquecido? Para Sónia Ribeiro, o debate sobre a representação africana já não pode limitar-se à presença de corpos negros nas imagens. Está em causa quem produz as narrativas, quem lhes dá espaço e de que forma histórias apagadas regressam ao presente. No caso de Dagmar Van Weeghel, a artista não se coloca no lugar das mulheres retratadas, mas dá-lhes palco para que tragam as próprias experiências de diáspora, migração e racismo. "Há a questão do arquivo, da memória, da identidade." Se memória e arquivo dominam parte da feira, Nú Barreto leva à AKAA uma leitura directamente política do presente. O artista guineense apresenta duas obras de uma série dedicada aos Estados Unidos, recorrendo à bandeira norte-americana, invertida, e a estrelas que parecem cair. "Será que ainda permanece a União?", pergunta. Nú Barreto diz olhar para o país a partir de fora e traduzir nas obras uma "decepção" perante o que considera ser a transformação política provocada pela ideologia MAGA. A imagem da queda é deliberada, "os valores estão a cair por completo", afirma. Nú Barreto reivindica para o artista essa capacidade de interrogar o poder. "Os artistas foram sempre e continuam a ser críticos", afirma, antes de resumir uma relação que considera inseparável, "a arte é política. A política é arte também." E, tal como Amadeu Carvalho, reclama mais espaço para os criadores africanos, mas rejeita que a visibilidade seja tratada apenas como uma concessão. "É necessário que o continente saiba e aceite o valor que tem e espelhe o valor que tem na sua promoção." Entre pigmentos vulcânicos, fotografias coloniais, memórias familiares e bandeiras invertidas, a AKAA mostra uma criação africana que não procura apenas ocupar espaço, procura também discutir quem constrói a memória, quem representa quem e a partir de que lugar se conta o presente.