
Começa nesta sexta-feira (30) a 48ª edição do Festival Internacional de Curtas‑Metragens de Clermont‑Ferrand. Até 7 de fevereiro, a cidade francesa cercada por vulcões extintos e marcada pela arquitetura de pedra negra volta a receber milhares de profissionais do audiovisual para aquele que é considerado o maior festival de curtas do mundo. Adriana Moysés, enviada especial a Clermont-Ferrand À medida que as salas ganham filas e as ruas se enchem de credenciais coloridas, Clermont-Ferrand assume outra identidade: a de ponto de encontro global de cineastas, programadores e curiosos pelo formato do curta-metragem. Neste ano, a presença brasileira se espalha pela programação. Quatro curtas competem nas seleções oficiais, enquanto outros dez integram duas sessões no Mercado de Filmes. A participação é fruto de uma articulação entre a Associação Cultural Kinoforum, a Spcine, a Embratur – que estreia na mostra – e o Instituto Guimarães Rosa, representado pela embaixada do Brasil em Paris. O Brasil nas telas de Clermont-Ferrand Anne Fryszman, coordenadora de promoção da Kinoforum, descreve o entusiasmo com a recepção internacional às produções brasileiras e antecipa a presença dos realizadores nas sessões: “Esse ano temos quatro filmes brasileiros em competição, sendo um em competição internacional, 'Frutafizz', outro na competição Labo, 'O Rio de Janeiro Continua Lindo', e dois filmes brasileiros na competição nacional, porque são coproduções França-Brasil, mas são bem brasileiros, com histórias brasileiras, de diretores brasileiros e acontecem no Brasil. É o 'Samba Infinito' e 'Mira'. Já pela programação oficial, estamos muito empolgados, muito felizes, sendo que os quatro diretores vão estar presentes.” Na competição nacional francesa (51 filmes), Leonardo Martinelli apresenta “Samba Infinito”, ficção em que um gari, apesar do luto pela perda da irmã, trabalha durante o carnaval carioca; depois da estreia na Semana da Crítica de Cannes em 2025, o curta conquistou três Kikitos em Gramado. Daniella Saba concorre na mesma mostra com “Mira”, ficção sobre uma adolescente que sonha em ser caminhoneira. Na competição internacional (64 filmes), Kauan Okuma Bueno exibe “Frutafizz”, que acompanha dois colegas de trabalho em viagem pelo interior paulista e desembarca em Clermont‑Ferrand após vencer o prêmio de melhor curta em Gramado. Já na seleção Labo, dedicada às obras mais ousadas e inovadoras (24 curtas em disputa, metade deles documentários), Felipe Casanova apresenta “O Rio de Janeiro Continua Lindo”, híbrido de documentário e carta fílmica construído a partir da voz de uma mãe que perdeu o filho durante o carnaval. Presença ampliada no Mercado de Filmes Além das competições, o Brasil terá duas sessões dedicadas aos seus filmes no Mercado de Filmes. Anne destaca essa ampliação: “São filmes que a gente selecionou, a gente abriu as inscrições em outubro para filmes muito recentes ou em curso de finalização, filmes paulistanos, e fizemos uma seleção. E essa sessão Brazil Shorts from São Paulo é uma sessão com o apoio da Spcine. Mas temos também uma sessão com o apoio da Embratur. São filmes que foram realizados dentro do projeto do edital Brasil com S. São cinco filmes sobre a Amazônia”, conta. O edital da agência brasileira do turismo é uma maneira de incentivar a produção de filmes que mostrem o Brasil. “Eu sou de Clermont e sei que o público daqui espera essas histórias, esses filmes com muita ansiedade. Eles gostam mesmo”, diz a coordenadora de promoção da Kinoforum. A morte de Zita Carvalhosa, em julho de 2025, comoveu o audiovisual brasileiro e também a organização do festival francês. Diretora do Kinoforum e figura fundamental na defesa e difusão do curta-metragem no Brasil e no exterior, Zita foi lembrada como “catalisadora de talentos” por colegas e instituições do setor. Agora, quem assume a coordenação-geral da Kinoforum no festival é Vânia Silva, que chega à Clermont pela primeira vez nesta função. “Embora essa seja a primeira vez que eu vá ao Festival de Clermont, eu estou na Kinoforum há 20 anos. Então, o bacana é ver que cada vez mais os curtas têm ganhado espaço no festival, que é uma iniciativa que a Zita Carvalhosa, alguns anos atrás, vislumbrou de abertura desse espaço para as produções brasileiras. E isso vem crescendo ainda mais. Acho isso muito rico neste momento que o cinema brasileiro está em pauta”, destaca Vânia. Segundo maior festival de cinema da França, atrás apenas de Cannes, Clermont‑Ferrand recebe em média cerca de nove mil inscrições de curtas por ano. Em 2025, atraiu 173 mil visitantes e mais de quatro mil profissionais – números que os organizadores esperam ultrapassar em 2026.