
As denúncias de crimes sexuais cometidos contra crianças matriculadas em atividades de recreação nas pré-escolas de Paris vêm provocando forte mobilização de pais e associações de proteção à infância. A pressão sobre as autoridades municipais é tamanha que o novo prefeito da capital, o socialista Emmanuel Grégoire, recém-eleito, anunciou o combate a esse tipo de violência como uma das prioridades de seu mandato. Maria Paula Carvalho, da RFI em Paris Uma das vítimas é filha de Marie (nome fictício), mãe profundamente traumatizada pelo estupro sofrido pela menina quando tinha apenas quatro anos. A criança foi violentada por um agente de recreação em uma escola do 13º distrito de Paris, onde cerca de 15 casos semelhantes foram registrados. Para preservar sua identidade, o nome da mãe foi alterado. "Ela foi estuprada por um agente de recreação. Ele também fazia com que as crianças o tocassem e se tocassem entre elas, nas partes íntimas, e dizia que, se elas contassem alguma coisa, os pais morreriam. Que elas deveriam guardar segredo. Você imagina o traumatismo que isso provoca?", questiona. Sete anos depois, a família segue marcada pelo trauma. A menina vive em estado permanente de estresse, agonia e raiva, sendo acompanhada por psicólogos, o que também representa um alto custo financeiro. “Ninguém nos ajuda”, afirma a mãe. Ao tomar posse em 29 de março, Emmanuel Grégoire destacou o problema em seu discurso, prometendo identificar os responsáveis pelas agressões. Desde o início de 2026, apenas em Paris, 78 agentes de recreação foram suspensos, dos quais 31 por suspeita de crimes sexuais. Diante desses números, o prefeito anunciou uma revisão completa dos procedimentos, com “tolerância zero”. Segundo ele, será criada uma comissão independente para reavaliar os processos de contratação, os mecanismos de denúncia e os sistemas de controle. "Devemos proteger nossas crianças e criaremos um grupo de escuta dos pais para casos suspeitos", acrescentou. Paris anuncia plano milionário para proteger crianças A prefeitura aprovou um plano orçado em € 20 milhões, que inclui a revisão da formação profissional dos agentes, o aprimoramento do atendimento às denúncias, apoio às vítimas e a aplicação de sanções. Em entrevista recente, Emmanuel Grégoire revelou carregar uma “cicatriz interna” após ter sido vítima de violências sexuais durante vários meses quando tinha menos de dez anos, inclusive em uma piscina municipal. O caso de Paris se insere em um contexto mais amplo: a França enfrenta uma explosão de denúncias de pedofilia envolvendo profissionais responsáveis por atividades extracurriculares, fora do período de aulas. As vítimas têm entre 3 e 5 anos, e os casos incluem estupros e atos repetidos de violência sexual. A situação se agravou este ano com a revelação de episódios graves em pelo menos três escolas da capital. Esses trabalhadores, vale destacar, não são vinculados ao Ministério da Educação. A explicação é de Elisabeth Guthmann, cofundadora do grupo SOS Périscolaire, coletivo criado em 2021 por pais e profissionais para denunciar, documentar e combater a violência no ambiente extracurricular. Segundo Guthmann, na maioria das famílias francesas ambos os pais precisam trabalhar para garantir a subsistência, o que levou as prefeituras a criarem serviços de acolhimento antes e depois do horário escolar. No entanto, ela alerta para falhas estruturais nesses programas. “Faz cinco anos que alertamos para graves disfunções nos programas extracurriculares em Paris e em todo o país. Temos denunciado a violência física, psicológica e sexual desde 2021 e, até muito recentemente, a Prefeitura de Paris se recusava a nos ouvir, a ouvir todas as famílias", disse em entrevista à RFI. A ampla cobertura da imprensa desde o ano passado, no entanto, levou a uma conscientização coletiva e forçou o anúncio de medidas. "Isso criou uma conscientização coletiva", ela destaca. Trauma precoce Os momentos considerados de maior vulnerabilidade para as crianças incluem idas ao banheiro, períodos de soneca, atividades de leitura em salas fechadas e até mesmo os refeitórios. As consequências dos abusos, segundo Guthmann, são profundas e duradouras. Casos documentados desde 2018 revelam crianças estupradas aos três anos que ainda hoje sofrem sequelas físicas e psicológicas graves, incluindo sintomas de estresse pós-traumático. Para o coletivo Me Too École, o fato de o prefeito ter tornado público seu próprio passado de vítima não altera o sofrimento cotidiano de muitas famílias. Anabel, uma das fundadoras do grupo, lembra que as famílias confiam na escola como espaço de formação e proteção. “As crianças não têm armas para se defender. A escola deveria ser um santuário, mas infelizmente não é mais assim”, afirma. Ela também questiona a atuação de Emmanuel Grégoire no passado, quando um relatório de 2015 já apontava problemas e ele era responsável pelo recrutamento dos agentes. Segundo Anabel, na época nenhuma medida foi tomada, ao contrário do discurso de excelência adotado pela prefeitura. Outro entrave apontado pelo coletivo é a lentidão das autoridades e da Justiça no combate a esses crimes. "Apenas 3% dos pedófilos são julgados, porque há dificuldade em recolher e levar a séerio os depoimentos das crianças," explica. Para Anabel, é essencial uma articulação coletiva. "É preciso reunir todos — as prefeituras, a polícia, o Ministério Público e o Ministério da Educação. Sem isso, não será possível implementar um protocolo para proteger as crianças, uma vez que cada instituição tem seus próprios interesses", aponta. Após um ultimato dos pais, a prefeitura de Paris prometeu divulgar estatísticas trimestrais sobre suspensões de agentes de recreação, dados que até então eram de difícil acesso. Para Elisabeth Guthmann, trata-se de um avanço. “É um bom começo, foram anunciadas medidas que reivindicamos desde 2021, mas ainda há muito a ser feito, para garantir segurança às crianças”, disse à RFI. Entre as principais demandas está a criação de um sistema de denúncia realmente eficaz. Até agora, relatos feitos pelos pais frequentemente não chegavam às instâncias superiores, esbarrando em disputas de responsabilidade entre escolas e programas extracurriculares. O coletivo defende que, diante de qualquer denúncia, o agente seja imediatamente suspenso, que investigações administrativas sejam rápidas, que os relatórios sejam entregues às famílias e que o Ministério Público seja automaticamente informado. Sem respostas adequadas, muitas famílias vivem sob constante medo. A de Marie decidiu se mudar para o interior. Mesmo assim, o trauma persiste. Sete anos depois, a filha, hoje com 11 anos, afirma que só conseguirá viver normalmente quando o agressor estiver preso. O medo de que ele volte a atacá-la permanece. “A infância dela foi destruída. Não há mais alegria despreocupada. Nossa vida familiar foi destruída”, conclui a mãe.