
Desde 2024, a França vive uma explosão de denúncias de abusos psicológicos, físicos e sexuais cometidos por agentes de recreação que atuam nas escolas públicas fora do período de aula — sobretudo em Paris. Esses profissionais são responsáveis por acompanhar as crianças durante as refeições, os momentos de lazer e após o fim das aulas, mas não fazem parte do corpo docente do Ministério da Educação. Maria Paula Carvalho, da RFI A situação se agravou em 2026, com dois casos graves ocorridos em escolas de educação infantil da capital. Em um deles, a família de um menino de três anos denunciou o estupro da criança em um banheiro da escola. No segundo episódio, outro menino da mesma idade teria sido violentado em circunstâncias semelhantes, por um homem que já havia sido denunciado anteriormente em outro estabelecimento. As identidades dos suspeitos não foram divulgadas, e as investigações seguem sob sigilo judicial. Sistema falha também para quem denuncia A RFI conversou com uma brasileira que trabalha como agente de recreação em Paris. Por razões de segurança, ela pediu para não ser identificada. No depoimento, descreve um cotidiano marcado por precariedade, medo e falta de resposta institucional. “A gente não pode ter contato físico com criança, não pode pegar no colo, não pode dar beijo. Houve um caso de um animador que só queria pegar as crianças no colo ou fazer atividades com portas fechadas. A gente sinalizou esse mau comportamento. Depois disso, eu fui mudada de escola porque essa pessoa teve momentos de agressividade, tentou me jogar da escada. Tive que ir à delegacia registrar queixa. Passei a ter crises de angústia, faço tratamento até hoje, e no fim não deu em nada.” Segundo ela, os problemas se estendem à falta de pessoal e às condições de trabalho. “Nós reivindicamos mais contratações, principalmente nos dormitórios, onde deveriam estar dois animadores. Hoje, por falta de recrutamento, há apenas um", diz. "Enquanto as crianças brincam, há acidentes, e não há gente suficiente para dar conta. Eles querem economizar, essa é a verdade. Os salários são baixos, os horários são fragmentados e não atraem. Estamos pedindo respeito: melhores salários, horários e valorização”, completa. Após a multiplicação de denúncias de violência sexual contra crianças em escolas públicas, cerca de uma centena de agentes de recreação se reuniram na semana passada em frente à prefeitura de Paris. A mobilização foi organizada por sindicatos e acompanhada de greve, com o objetivo de denunciar a precariedade do setor e exigir melhores condições de trabalho. Pais denunciam falhas no modelo de contratação Do lado das famílias, cresce a mobilização. Um dos coletivos mais ativos é o Me Too École, formado por pais que denunciam falhas estruturais no sistema de contratação e supervisão desses profissionais. Diferentemente dos professores, os agentes de recreação são contratados diretamente pelas prefeituras. O coletivo lançou uma petição com mais de 22.300 assinaturas, denunciando o que define como um silenciamento sistemático de casos de violência física, psicológica e sexual contra crianças no ensino público. Anabel, uma das fundadoras do Me Too École, explica por que o sistema é especialmente vulnerável: “Na pré-escola, as crianças têm dois anos e meio, três anos. São bebês, muito sensíveis à autoridade. Em teoria, um adulto nunca deveria ficar sozinho com uma criança, mas isso acontece por falta de funcionários. Os momentos mais críticos são a soneca, a ida ao banheiro ou a hora de se despir, quando elas ainda não são independentes. Existem também espaços isolados, como bibliotecas: projetadas para serem silenciosas, mas que, quando estão fechadas, se tornam lugares ideais para pedófilos.” De acordo com o site Les Pros de la Petite Enfance, 52 agentes de recreação foram suspensos pela prefeitura de Paris entre 2023 e 2025 por suspeitas de caráter sexual. Só em 2026, a prefeitura informou que 78 profissionais foram suspensos, incluindo 31 por suspeita de abuso sexual. Mesmo assim, os pais dizem se sentir abandonados. “Quando um filho nos conta que sofre violência, seja de outras crianças ou de um agente de recreação, não sabemos a quem recorrer", diz Anabel. Não sabemos se devemos procurar um médico ou a direção da escola, que muitas vezes não é responsável pelas atividades extracurriculares”, continua. Pressão política e promessas de mudança Diante da ausência de respostas, as famílias deram um ultimato às autoridades parisienses. O tema entrou no centro da campanha eleitoral municipal, levando o novo prefeito de Paris, Emmanuel Grégoire, a afirmar que o combate às violências no sistema de recreação escolar seria uma prioridade de seu mandato. O prefeito socialista apresentou um plano de ação com tolerância zero, que inclui a criação de um guia de acolhimento, reuniões anuais de início de ano sobre as atividades extracurriculares em todas as 620 escolas da capital e o compromisso de entregar às famílias todas as conclusões das investigações administrativas em caso de denúncia. Para Anabel, trata-se de um primeiro avanço — ainda insuficiente. “No início, encontrávamos portas fechadas e silêncio absoluto. Diziam: ‘Isso não existe’, ‘Eu não sabia’. Fizeram-nos acreditar que se tratava de um caso isolado. Mas percebemos rapidamente que não era. Houve humilhações, ameaças de morte, importunação sexual, violência sexual e até estupro de vulneráveis, tudo na pré-escola. E, diante disso, só víamos negação. Isso é absolutamente inaceitável.” As revelações impulsionaram um movimento nacional, com o apoio de coletivos como o SOS Périscolaire, que recolhe denúncias de famílias em todo o país. Elisabeth Guthmann, cofundadora do grupo, relativiza a ideia de que o problema seja exclusivamente francês, mas aponta uma diferença. “Existem pedófilos em todas as áreas e países. Isso não é exclusivo da França. A especificidade francesa é que estamos começando a falar sobre isso.” Ela critica a forma como o sistema judicial lida com os depoimentos das crianças. “Todos os profissionais de saúde dizem que uma criança não inventa algo que não viveu ou viu. Mesmo assim, ouvimos argumentos como ‘talvez ela tenha escutado alguém falar’, ou ‘talvez os pais tenham colocado palavras na boca da criança’. Isso faz parte do problema”, acrescenta Guthmann. Casos parados na Justiça Atualmente, pelo menos 15 investigações judiciais sobre abusos cometidos em atividades de recreação escolar estão em curso no Ministério Público de Paris. Entre elas está o caso de Marie (nome fictício), cuja filha foi abusada na pré-escola aos quatro anos. Apesar da denúncia e da suspensão do profissional, o processo segue sem desfecho. “Foram sete anos de investigação. Há um ano, nada acontece. Ele não é mais agente de recreação, mas continua recebendo salário da prefeitura de Paris há sete anos, sem trabalhar, e vivendo em outra região. E a prefeitura continua pagando. É um escândalo”, denuncia a mãe. A RFI entrou em contato com o Ministério Público de Paris, que informou que a fase de investigação está concluída. Para a mãe, no entanto, o caso permanece paralisado, enquanto os traumas da filha se aprofundam. Ela diz que tentou contato com o novo prefeito, sem resposta. “Ele disse que receberia todos os pais. Mas nem sequer tivemos confirmação de recebimento do e-mail. O que assusta é isso: não devemos esperar que a justiça seja feita. Sete anos depois, o agressor está livre, não houve julgamento, e o caso pode ser arquivado, mesmo com centenas de depoimentos.” Procurada pela RFI, a juíza responsável afirmou que não pode comentar o processo.