
Mirian Goldenberg descobriu, com base nas suas investigações, a curva da felicidade, em formato de U. Que curva será esta? Os estudos revelam que as pessoas mais felizes são as mais jovens e as mais velhas, sendo as mais infelizes e insatisfeitas com a vida, as que se situam na faixa etária entre os 40 e os 50 anos. “Ninguém nasce feliz, torna-se feliz.” Todas as pessoas envelhecem de forma diferente, as velhices são influenciadas por diversos fatores: sociais, económicos, culturais, familiares… Todavia, todas as pessoas podem envelhecer melhor. As mulheres podem envelhecer sendo felizes porque a “felicidade está na nossa essência, dentro de nós.”. Liberdade e felicidade andam de mãos dadas. Sim, há velhas felizes porque aprenderam a dizer não – ligaram o “botão do foda-se”, consideram o tempo o melhor capital, afastam as pessoas tóxicas (“vampiros emocionais”), reconhecem e valorizam a importância das amigas. Estas mulheres olham-se ao espelho e dizem, sem medo e com menos preocupação com os estereótipos e preconceitos relacionados com o envelhecimento, “Velha não é a outra: Velha sou eu! No Brasil, as mulheres reproduzem os preconceitos e estereótipos que assombram a velhice feminina. Há um pânico de envelhecer, encrustado em várias camadas, de se tornar transparente, invisível. Não é por mero acaso que o Brasil é o país em que se realizam o maior número de cirurgias plásticas no mundo, aproximadamente 1.5 milhões por ano. O país ultrapassa os Estados Unidos e o México, em segunda e terceira posição, respetivamente. Em Portugal como será? Em Portugal, verificou-se, durante a pandemia, uma maior preocupação para investir na imagem. Os portugueses procuraram de forma bastante mais intensa os procedimentos estéticos e cirurgias plásticas, como as rinoplastias (procura aumentou 144%), rejuvenescimento das pálpebras e sobrancelhas (55%), aumentos mamários (40%), de glúteos (40%) e a substituição de próteses (60%). “O procedimento com maior crescimento foi a Hialoestrutura, um rejuvenescimento global e integral da face ao pescoço, que aumentou 30%. “(Expresso, 14/02/2022) Todos somos livres de tomar as nossas decisões, mas não ignoremos que “A velhice está inscrita em cada uma de nós, a jovem de hoje é a velha se amanhã.” Os avanços da “ciência da vida longa”, “são investidos milhões na procura de fórmulas para pôr fim aos fardos associados à idade” (Visão, 10/02/2022), não devem reforçar e eternizar o mantra: “O velho é sempre o outro.” É fundamental assumir o controlo da própria vida, ter um projeto de vida, viver com significado, sonhar, aprender a dizer não, fomentar a autenticidade, iniciar uma etapa de ativismo social. É fundamental que cada mulher se comprometa civicamente, participe nos movimentos de cidadãos e que contribua para a conquista dos seus direitos e liberdades. Pode ser muito útil somar ao “botão do foda-se”, da Mirian Goldenberg, o “detetor das discriminações” da Ana Freixes: “Convém ter ativado o detetor das discriminações múltiplas com que nos deparamos por sermos mulheres, por sermos velhas, por sermos lésbicas, por não sermos, por sermos de cores. Por ser. Graças a esta aplicação, podemos distinguir entre o amor e o abuso, entre a amabilidade e a coação, entre a formalidade e o desinteresse. Somos velhas, não somo bobas” (Yo Vieja, Capitán Swing, 2021). Urge tornar visíveis os comportamentos que consolidam, normalizem e internalizam os estereótipos que a sociedade tem sobre as velhas. É prioritário desenvolver uma agenda política que estimule o envelhecimento livre, tranquilo, afirmativo, bem-humorado, ativo, saudável, participativo, seguro… A mudança tem que ser feita por cada um de nós, “só assumindo, consciente e plenamente, em todas as fases da vida, que também somos velhas, é que podemos ajudar a desfazer os medos, estereótipos e preconceitos existentes sobre o envelhecimento feminino.” (Mirian Goldenberg) #RevolucaoDABelaVelhice FOTO: Tiago Miranda (E, Expresso)