
O livro “Caixinhas de Música – Conversas sobre Música Brasileira Tempo e Cidades”, que reúne entrevistas com grandes artistas brasileiros, fez um grande sucesso no Brasil em 2024. A obra da editora Autonomia Literária, organizada por Fabio Maleronka e Renata Rocha, ganhará um segundo volume, com previsão de lançamento em 2027. “Os lugares onde a música acontece”: essa foi a ideia que guiou o projeto que faz recortes da trajetória de grandes artistas de diferentes gerações, estilos musicais e todas as regiões do Brasil. Fabio Maleronka e Renata Rocha se concentraram nos locais que muitas vezes “parecem detalhes na trajetória”, mas dizem muito sobre a essência de ícones da cultura brasileira. “O Mato Grosso de Ney, a esquina do Clube da Esquina, a Governador Valadares da Wanderléa, a Irará de Tom Zé”, lista Fabio. Como o próprio nome do projeto diz, “Caixinhas de Música” traz conversas com dezenas de artistas brasileiros sobre suas trajetórias, em diferentes espaços e contextos, onde vida e carreira se misturam. Desta forma, a conversa de Alice Caymmi se encontra com a de Michael Sullivan; a de Moraes Moreira, com Armandinho e Spok. “Essas entrevistas vão se cruzando por afinidade, como se elas fossem fazendo parcerias inusitadas”, diz Fabio. No primeiro volume do livro, os organizadores explicam que as entrevistas, gravadas entre 2020 e 2024 não são diálogos ensaiados ou previamente estabelecidos, o que abre a possibilidade a revelações e histórias inesperadas. “O Ney conta que o fato de ele usar no sobrenome Mato Grosso como nome artístico – e diferente do estado, ele escolhe usar tudo junto, Matogrosso – isso faz com que ele possa ser algo muito questionável na década de 70. Ninguém queria ser latino, diferente de hoje, que todo mundo quer”, observa. “Mas o Matogrosso do Ney permite que ele grave frevo, que ele grave baião, músicas de todos os gêneros, porque esse ‘Matogrosso’ dá essa proteção a ele”, reitera. Fabio também relembra a gravação da entrevista com Hermeto Pascoal, realizada em 2024, alguns meses antes de sua morte. “Na preparação, eu disse: ‘não vou falar que o Hermeto Pascoal é um gênio, para ser a milésima pessoa fala isso’”, brinca. “Então essa é uma entrevista muito conduzida sobre pintura, comida, como ele pinta as próprias capas dos discos, porque, no caso do Hermeto, a gente não está falando de um artista que a música é uma linguagem artística, mas uma dimensão da vida”, diz. Volume 2 Se no primeiro volume de “Caixinhas de Música” histórias contadas pelos artistas deram o que falar – como a jaguatirica que Rita Lee tinha como animal de estimação – a sequência do projeto promete. Na lista de estrelas entrevistadas, há Fernanda Takai, Tom Zé, Alceu Valença e Wanderléa, que contou a Fabio episódios do início de sua carreira que o surpreenderam. “Wanderléa inventa toda a forma de comportamento no Brasil, de usar bota, adereços de cabelo, de uma forma de dançar”, destaca. “Praticamente todas as artistas, inclusive Gal [Costa], Nara [Leão], iam para o show da Wanderléa para ver uma como era um show da Jovem Guarda. Ninguém podia declarar publicamente isso, mas Wanderléa era uma inspiração para todas as cantoras da época”, afirma. Outra história surpreendente que trará o segundo volume do projeto “Caixinhas de Música” diz respeito ao encontro entre o cantor e guitarrista da banda Talking Heads e o músico baiano Tom Zé. “David Byrne entra numa loja, vê um disco com o nome ‘Estudando o samba’ e se pergunta quem é aquele cara. E o Tom Zé sai praticamente de um exílio em território nacional para para estourar nos Estados Unidos de novo depois de tanto tempo graças a essa descoberta”, destaca. Várias facetas de um mesmo artista Para Fabio, contar essas e outras histórias tão inusitadas e surpreendentes é também uma forma de revelar os diversos personagens dentro de um artista. “Por exemplo, o filme ‘Meu Nome é Gal’, de Dandara Ferreira, retrata a jovem Gal. Mas quantas artistas existiram naquela pessoa? Quantas artistas existiram na da Rita Lee? Quantas fases elas viveram? Isso é muito perceptível quando você ouve uma entrevista daquela época e você entende aquela fase específica também da pessoa”, diz. Por isso, segundo Fabio, entrevistar grandes artistas da música brasileira é uma experiência particular. “Quando a gente grava, muitas vezes a gente não entende direito a entrevista depois que a gente sai dela. A gente vai entender às vezes um mês depois. E cada entrevista tem mesmo um tempo”, avalia. Por isso, para Fabio, na execução de Caixinhas foi essencial levar em consideração que “histórias vão acontecendo”, de “personagens profundos e o que eles estão vivendo” mas, segundo o coautor, “sempre com um pouco de humor”. “É um livro que a gente chama de livro de avião, livro de ônibus. Você pode ver de qualquer jeito, de qualquer forma, de trás para frente. É um livro de entrevistas. Ele também tem o sentido de se divertir”, resume.