
Artista visual mineira Laura Lima abre sua maior exposição solo no Instituto de Arte Contemporânea em Londres com obras jamais vistas em três décadas de carreira. The Drawing Drawing instiga o público a questionar normas, expectativas, espaço e tempo ao interagir com suas obras. Yula Rocha, correspondente da RFI em Londres Para Laura Lima, arte é movimento, e assim começa a entrevista, com a artista de costas, sentada em uma plataforma giratória. A mineira de Governador Valadares, que já foi dançarina, explica que o título la mostra, que ocupa dois andares do Instituto de Arte Contemporânea, com trabalho comissionado especialmente para o espaço, pode ser traduzido em português como "Desenho em Desenho", "Desenho sobre Desenho", mas também como "Desenho Desenhando", reforçando essa ideia de movimento. A primeira reação ao entrar na exposição é perceber que há uma pessoa nua na sala - um modelo vivo profissional - deitada em uma das plataformas redondas de madeira que se movem suavemente em todas as direções. Mas como toda instalação de Laura Lima, o público não está aqui apenas para observar ou participar de uma aula tradicional de modelo vivo. A brasileira desconstrói essa prática artística do século dezesseis ao nos convidar a ocupar outras plataformas rotatórias. Cada uma tem um banco de madeira, um cavalete e material artístico à disposição para desenhar o modelo nu presente na sala. “Tem uma coisa só distinta: não só o modelo pode estar virado para qualquer direção como também aquele que o desenha. E aí a gente se pergunta - esse que desenha, ele foca? Foca em quê se tudo se move? Que tipo de perspectiva ele vai construir no seu desenho? O desenho pode ser um instrumento de autêntica radicalidade”, explica a artista à RFI. Os desenhos do público podem ser levados para casa ou colocados em uma caixa na galeria para depois serem expostos no corredor central do Instituto de Arte Contemporânea (ICA). O centro cultural, com salas de cinema e áreas de exposição, fica em um endereço central de Londres, o Mall, que liga o Palácio de Buckingham a Trafalgar Square. O ICA nasceu em 1948 dedicado à arte experimental na capital britânica. Francis Bacon, Pablo Picasso e Steve McQueen já apresentaram suas obras nesse mesmo espaço hoje ocupado pela brasileira convidada pela curadora do Instituto a montar essa exposição. “Esse é um lugar absorvente de uma certa experimentação que sempre é necessária, porque mesmo artistas clássicos já propunham coisas interessantes", analisa. "Essa é uma instituição que passou a ser um histórico de radicalidade. Eu ouvi dizer que o ICA foi criado em contraposição aos processos trabalhados na Royal Academy. Eu fui lá olhar uma aula de desenho, ver a forma como eles trabalhavam para poder me inspirar a fazer alguma coisa aqui”, relata. Londres não foi inspiração para tudo. Laura Lima traz para a cidade materiais já vistos no Brasil, em Barcelona, na Espanha e em Nova York. De seu Balé Literal, está presente um grande para-sol vermelho dançante de cabeça para baixo movido por controle remoto e acompanhado de artistas - ou trabalhos vivos como ela se refere - que interagem com a obra. Para a mostra The Drawing Drawing, Laura resgata um projeto do início da carreira que nem o público brasileiro conhece. Em um grande freezer, há bandejas com imagens congeladas que, ao derreterem, se transformam e se revelam diante dos olhos do público. De novo, a ideia da arte em movimento é presente. “Uma pintura dentro de um museu também está em movimento, uma vez que uma pintura a óleo está se oxidando. A gente acha que as coisas são estanques, mas não são. Como então a gente mantém obras que são feitas de gelo? É claro que estou falando muito em movimento, isso está sempre no meu trabalho. Esse é quase um recado de que, apesar de tentar conter as coisas, é preciso sempre repensar que tipo de ética você constrói ao redor disso”, explica. Ao lado da geladeira, há uma obra do futuro, porque tempo também é movimento. Suspensa em frente a uma janela, onde vemos lá fora a vida passar, há uma instalação feita de um entrelaçado de matéria orgânica - linhas de algodão e pedaços de carvão. A obra tem data estimada para ser concluída - daqui a 58 anos! “Essa obra é de 2084. Aí o público pergunta, como assim, Laura, se estamos em 2026? Porque a obra é uma tecitura feita com algodão cru muito sensível com pedaços de carvão que vão tingindo esse tecido. Eu então retomo uma coisa tão tradicional que é a palavra em francês vernissage, ou seja, quando o pintor vai lá e diz que a obra está pronta e passa o verniz (na tela). É e aí eu digo que essa obra me parece que vai estar pronta em 2084.” Laura Lima nos convida a abraçar essas provocações e a entrar na dança da sua arte em movimento. The Drawing Drawing fica em cartaz no Instituto de Arte Contemporânea de Londres até o dia 29 de março.