
O documentário "Aqui Não Entra Luz", da cineasta paulista Karol Maia, é um dos destaques da programação do Festival Brasil em Movimentos, que acontece de 17 a 19 de setembro em Paris. Filha de uma trabalhadora doméstica, Karol parte de memórias pessoais para investigar como os quartos de empregada revelam a permanência de hierarquias sociais e raciais herdadas da escravidão. Ao cruzar relatos de mulheres negras, pesquisa histórica e reflexão sobre o espaço doméstico, o filme discute a forma como essas estruturas continuam moldando a sociedade brasileira. Nas sessões realizadas na Europa, Karol diz ter percebido uma reação recorrente do público estrangeiro: a surpresa diante da relação de proximidade e dependência entre patrões e empregadas domésticas no Brasil. "Na Europa, aparentemente, essa dinâmica de trabalho não acontece da mesma forma. Mas, sobretudo, o fato de ter uma funcionária dormindo na sua casa é o que mais causa estranhamento", afirma. O documentário reúne relatos de seis trabalhadoras domésticas, entre elas a própria mãe da diretora. Ao longo da narrativa, o filme mostra como o espaço reservado às empregadas dentro das residências revela hierarquias sociais herdadas da escravidão e ainda presentes no cotidiano brasileiro. Para Karol, um dos principais obstáculos para enfrentar essas desigualdades está justamente na naturalização da profissão. Segundo ela, o trabalho doméstico permanece invisível porque está profundamente incorporado à vida social brasileira. "É uma profissão que está dentro da nossa vida de uma forma bastante natural e a gente não para muito para conversar sobre ela", observa. "Culturalmente, ela não tem um valor social, cultural e econômico dentro da sociedade brasileira." A cineasta aponta que a presença da empregada doméstica é constante na cultura nacional, mas quase sempre tratada de forma superficial. "A gente liga a televisão, assiste uma novela, e aquela figura surge às vezes como alívio cômico e depois desaparece. Mas estamos falando de pessoas quase onipresentes, que de alguma forma ditam como a sociedade brasileira funciona hoje." Salários no centro do debate Após as exibições no Brasil, Karol relata ter recebido reações muito diversas, de filhos de empregadas domésticas a pessoas criadas por babás. Nos debates com o público, ela procura deslocar a discussão para um aspecto concreto: a remuneração dessas profissionais. "Eu sempre tento provocar sobre a questão financeira, sobre a valorização pela via do dinheiro", explica. "É um dos mecanismos que a gente pode usar para que essa profissão seja mais considerada dentro do sistema de trabalho e da economia do país." Embora reconheça que mudanças de comportamento dependem de escolhas individuais, a diretora acredita no potencial transformador dos encontros promovidos pelo filme. "Quero acreditar que quem se abre para as histórias do filme também esteja aberto a rever seu próprio comportamento." Filme realiza sonho de trabalhadora mineira Um dos efeitos mais marcantes da trajetória do documentário, segundo ela, tem sido o impacto na vida das mulheres retratadas. O caso que mais a emociona é o de Rosarinha, trabalhadora doméstica mineira que conta no filme ter abandonado o sonho de se tornar professora. Recentemente, Rosarinha passou a participar de aulas em cursos de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), discutindo os temas abordados no documentário. Em uma das iniciativas, tornou-se colaboradora de uma disciplina inspirada no filme. "Fiquei muito emocionada", conta Karol. "O filme acabou sendo um mediador para a realização desse sonho dela." Segundo a diretora, o professor responsável pela disciplina entendeu que não faria sentido discutir o tema sem a presença de uma trabalhadora doméstica. "A Rosarinha tem sido essa representante do filme dentro da sala de aula." Violência social e racial O documentário também dialoga com discussões mais amplas sobre violência social e racial. Karol lembra que ficou profundamente impactada pelo caso do menino Miguel Otávio, de 5 anos, que morreu após cair do 9º andar de um edifício no Recife, em 2020, depois de ser deixado sozinho no elevador pela empresária e primeira-dama de Tamandaré, Sarí Côrte Real, no prédio onde sua mãe, Mirtes Renata, trabalhava como empregada doméstica. "Quando vi a notícia, passei a noite sem dormir pensando na Mirtes e no Miguel", recorda. A cineasta acompanha desde então a trajetória de Mirtes e diz ter se emocionado ao vê-la concluir recentemente o curso de Direito. Para ela, a história evidencia como a desvalorização do trabalho doméstico afeta também as famílias dessas mulheres. "O Miguel é um exemplo de como essa profissão é desvalorizada e, consequentemente, como as famílias dessas trabalhadoras também são." Karol observa que o filme aborda diversas formas de violência associadas ao trabalho doméstico. Ela cita a história de uma personagem que teme perder os vínculos com a própria filha por passar mais tempo cuidando dos filhos da patroa, e outra que relata ter tido a filha afastada de sua convivência. "Existe uma dinâmica bastante violenta em relação à valorização da maternidade dentro dessas casas", afirma. "E tudo isso está atravessado pelas questões de raça e classe." Ao comentar os frequentes casos de trabalhadores resgatados de condições análogas à escravidão, a cineasta defende respostas mais firmes das instituições brasileiras. "É importante o Brasil dar nome para esses monstros que nos cercam, esses monstros que a escravidão foi deixando no nosso caminho", diz. Para ela, casos recentes envolvendo trabalhadoras domésticas submetidas a décadas de exploração mostram que o país ainda convive com práticas herdadas de seu passado escravista. Risco de retrocesso Apesar do reconhecimento alcançado pelo filme, Karol admite preocupação com o cenário político brasileiro e com o espaço ocupado por discursos conservadores. Ela lembra que o ex-presidente Jair Bolsonaro votou contra a chamada PEC das Domésticas quando era deputado federal e vê uma continuidade dessas posições no debate público atual. "Não é um pensamento político preocupado com a vida das trabalhadoras domésticas, nem com a vida das mulheres", afirma. Entre memórias familiares, denúncia social e reflexão histórica, "Aqui Não Entra Luz" propõe um olhar sobre um dos ambientes mais invisibilizados da arquitetura brasileira para revelar algo maior: a permanência de desigualdades que atravessam as paredes das casas e continuam moldando as relações sociais no país. "A semente a gente está plantando", resume Karol. "Espero que as pessoas saiam dessas conversas dispostas a mudar." O Festival Brasil em Movimentos tornou-se uma das mais importantes mostras de documentários brasileiros da Europa. Sua programação é dedicada a filmes que exploram questões sociais, políticas e ambientais do Brasil contemporâneo. "Aqui Não Entra Luz" será exibido ao público na próxima sexta-feira (18), no Cinema 7 Parnassiens, em Paris. Após a sessão, às 19h30 (horário local), Karol Maia participará de um debate com o público e especialistas. No Brasil, o documentário está disponível em streaming na plataforma Doc Canal Brasil.