
Em nova turnê na Europa, Fabiana Cozza se apresenta em Paris com repertório que percorre clássicos do samba brasileiro, do samba de roda baiano à obra de compositores como Dona Ivone Lara, Nelson Cavaquinho, Cartola, Wilson Moreira, Ney Lopes e Clementina de Jesus. Uma das principais vozes do samba contemporâneo, a cantora, pesquisadora e escritora celebra os 50 anos de vida em um momento de especial realização pessoal: a conclusão do doutorado em música pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). A celebração começou no último dia 10, com uma roda de samba no Studio de l'Ermitage, produzida por Regina Del Papa. Cercada por músicos brasileiros e franceses, entre eles o baixista Gerson Saeki, Fabiana reencontrou em Paris o ambiente festivo e coletivo que considera fundamental para compreender o samba para além do espetáculo. Para ela, a roda de samba é "esse lugar de celebração, de festa", mas também o espaço que a "forjou como artista" e como pensadora. A artista segue aprofundando a proposta que orienta esta temporada europeia: apresentar o samba não apenas como gênero musical, mas como expressão cultural, histórica e filosófica. Fabiana observa que o samba continua sendo frequentemente reduzido, fora do Brasil, à imagem do Carnaval. Sua proposta é ampliar esse olhar, apresentando-o como um espaço de memória, sociabilidade, ancestralidade e produção de conhecimento. "Eu tenho o samba como uma estrutura de pensamento, de relação, de sociabilidade, de história, de ancestralidade, de espiritualidade, onde a gente, através da música, faz com que ele aconteça", afirma. Na conversa com a RFI, a cantora explica que procura compartilhar essa dimensão com o público europeu, contextualizando as obras e os artistas que interpreta. Ao revisitar compositores como Dona Ivone Lara, Cartola, Nelson Cavaquinho, Ney Lopes e Clementina de Jesus, ela busca mostrar o samba como uma tradição viva, capaz de transmitir valores, histórias, formas de compreender o mundo e a sociedade brasileira. Essa reflexão atravessa também seus trabalhos mais recentes. Nos últimos dois anos, Fabiana lançou singles como Motumbá, Oloie de Ogum, Choro das Águas e Macumbeira, nos quais reafirma a importância das tradições afro-brasileiras e da liberdade religiosa. Ligada ao candomblé, a cantora afirma que se sente comprometida com o combate à intolerância religiosa e com a divulgação de conhecimentos sobre os orixás e as culturas de matriz africana, sem abrir mão do respeito às diferentes crenças. Pela pacificação inter-religiosa Sua defesa dessas tradições vem acompanhada de uma mensagem de convivência. Fabiana diz ser uma pessoa "muito respeitosa com a fé das pessoas e também com aqueles que não a professam" e rejeita qualquer tentativa de impor convicções religiosas. O objetivo, afirma, é contribuir para "a construção de um mundo onde as pessoas possam professar a sua fé amplamente". O momento de celebração coincide, porém, com uma fase de inquietação em relação ao Brasil. Embora descreva a turnê como uma festa pelos 50 anos e pela conclusão do doutorado, Fabiana admite acompanhar com preocupação a conjuntura política do país. Na sua visão, o samba mantém uma vocação histórica para a resistência, a denúncia e a construção de laços comunitários. "O samba é e sempre foi essa arte da palavra, da poesia, da resistência, da denúncia e da festa como potência revolucionária", resume. Comunidades do samba de São Paulo Aos 50 anos, a artista também prepara novos projetos. Ela tem selecionado títulos para dois novos álbuns. Um deles será dedicado a compositores ainda pouco gravados das tradicionais comunidades de samba paulistas, como o Berço do Samba de São Mateus, na zona leste, o Pagode da 27, no Grajaú, e a Comunidade Samba da Vela, ambos na zona sul. Outro, concebido ao lado do baixista Fi Maróstica, pretende retomar o diálogo com a diáspora negra, tema recorrente em sua trajetória artística. A turnê europeia prossegue neste domingo, 25 de outubro, com uma nova roda de samba no Studio de l'Ermitage, em Paris, espaço que se consolidou como um dos principais palcos da música brasileira na capital francesa. Depois, seguem duas apresentações mais intimistas nos dias 30 e 31 de outubro, na sala L'Accord Parfait, acompanhada pelo pianista franco-brasileiro Philippe Powell. Filho do violonista Baden Powell, Philippe é um dos nomes de destaque da cena jazzística contemporânea, transitando entre o jazz, a música brasileira e os ritmos afro-brasileiros.