
Em um livreto escrito em castelhano e publicado no fim do século 15, o bispo de Ávila discorre em linguagem simples e acessível sobre como se comportar de acordo com os preceitos cristãos. Na mesma época, Hernando de Tavalera, conselheiro da rainha Isabel de Castela (1451-1504), publicou um pequeno tratado sobre um tema deveras banal: as fofocas. O objetivo era demonstrar que comentários depreciativos e pouco edificantes não estavam dentro da moral cristã e, caso o ato fosse incontrolável, era preciso saber como conduzir a situação da melhor maneira possível, se desculpando, por exemplo. Hernando de Tavalera também escreveu outros livros, tais como, sobre a “Breve e proveitosa doutrina do que deve saber todo cristão” (1496) – com uma estrutura e conteúdo que respondem, portanto, ao gênero das cartilhas com finalidade catequética, cujo objetivo último era oferecer aos fiéis, em língua vulgar, um resumo simplificado da doutrina cristã. Hernando de Tavalera escreveu este livro sobre a “Arte de Bien Morir y Breve confessionário”- composto inicialmente para socorrer ao desamparo espiritual que se impôs nos séculos XIV e XV com as ondas de peste, as tensões políticas e as lacunas da ação pastoral no ocidente cristão, palco de contendas dramáticas como o Grande Cisma da Igreja, o texto da arte de bem morrer também teve um lugar junto a demandas específicas dos fiéis ibéricos daquela época. Outro documento da época, “La arte de bien morir y breve confessionário”, versa sobre a importância de se preparar para a morte. No texto, o autor detalha a chamada boa morte, também em linguagem acessível, para que clérigos ao visitar fiéis, ao professarem missas ou praticarem atividades confessionais pudessem memorizar e retransmitir conceitos sobre a tentação contra a fé, a desesperança, a impaciência e a avareza, de modo que o fiel pudesse subir aos céus em paz. [...] No total, 56 desses documentos históricos estão agrupados no banco de dados "Obras pastorais e doutrinárias do mundo ibérico", com acesso aberto para pesquisadores e curiosos. Entre os séculos XIII e XV, a Península Ibérica passava por mudanças profundas. Estava em curso a Guerra da Reconquista, que expulsou o povo árabe dos territórios do sul da Europa em 1492. Por lá, viviam também muitos judeus e a grande maioria das pessoas não sabia ler. Esses fatores dificultavam a difusão do conhecimento sobre a moral cristã, os mandamentos da Igreja e, inclusive, orações como o Pai Nosso e Ave Maria. [...] “A variedade de gêneros usados naquela época para difundir a moral cristã é algo impressionante também. Ensinava-se como um rei pode selecionar as pessoas que vão estar ao seu lado durante o seu reinado. Já o texto sobre as fofocas trata de algo mais cotidiano: o que a gente fala e como a gente fala. Mas, independentemente do gênero e do público que se queria alcançar, esses são os primeiros textos em língua vernácula que recontam os costumes da época, a história da língua portuguesa e do castelhano. Tudo era uma forma de propagar a moral cristã naquela época.” Fontes (textos/créditos): https://agencia.fapesp.br/banco-de-dados-reune-textos-criados-para-difundir-a-moral-crista-no-fim-da-idade-media/37930/ https://revistamuseu.com.br/site/br/noticias/nacionais/15031-06-09-2022-livro-descreve-o-processo-de-expansao-do-cristianismo-na-europa-entre-os-seculos-12-e-15.html http://catolicismo.com.br/materia/materia.cfm?IDmat=E324E968-F714-7F28-2AC8BEF5B88BF868 Imagem (créditos): http://catolicismo.com.br/materia/materia.cfm?IDmat=E324E968-F714-7F28-2AC8BEF5B88BF868 Trilha sonora (créditos): https://www.youtube.com/watch?v=ZxW42FlkaGQ. Beautiful Day - Peder B. Helland