
Cais de farrapos. Velho quadro da manhã. Paisagem do adeus que nunca findará. Breve névoa neste cais de farrapos, escondendo a podridão inquieta. Cais de ferrugem e gaivotas soltando guinchos angustiantes. Recordo-me dos dias tristes, na minha memória rasgada pelo tempo. Palmo a palmo, o sol rompia as nuvens. Memórias da vasta manhã lenta. Os deuses ocultos navegavam pela orla do silêncio. Na espuma da pequena manhã cintilante, na manhã que cresce com o sol, no prolongamento da realidade nua e descalça, uma criança despida andava no passeio de olhos vazios. As palavras perdem-se no cais de farrapos, como bagos de lágrimas. Mil e um vazios de sonhos, nas gaivotas assustadas. No mar despido encontrei a doçura de poemas perdidos, sem rota. Cada vez me convenço mais que a vida não se explica, por mais que ela seja explicada.