
Conto final/inicial da trilogia de Graciliano Soledad - Contos de Solidão. Música: Pedro Rossi. Despenando, Sobre Valladares (2019). POSFÁCIO Não o procurem na história. Semelhante a muitos, viveu amores que sempre terminam e dores que criam raízes profundas nas covas do tempo. Seguramente, foi um reles homem de campo, exilado nos próprios silêncios, vassalo em outros tempos, escravo em outra vida. Dois olhos de ver o nada, viveu arroupado ao sobrenome castelhano que portava, sectário da escolha como forma do único caminho que conhecia — ainda que errante — de amansar a vida. Trouxe a existência dividida, doce e fel tangenciando o pretérito e a sina inclemente de recordar sonhos que pensava conquistados. Gostava do mais singelo. Juntava pelo caminho tortuoso a flor e o espinho que colheu pelas andanças. Antes de não superar as mazelas críveis da desolação e do desamor, jogou-se às lanças do fosso álgido do abandono. Cuidou do amor com brandura, como a uma flor de laranjeira. Foi rei e dono do mundo, estancieiro em sesmarias. Ganhou todo o ouro, que não sabia se merecia. Perecível, o amor lhe escorreu pelos dedos da razão, olvidando os elementos da imprópria constituição. Não foi invencível, foi mais carne e sangue que qualquer outro. Trouxe as estrelas por abrigo, recordando o quanto era forte e débil e, quando a Lua chegava, criava para si o idílio da salvação de que somos histórias, palavras que habitam páginas que assentamos a cada dia, com a melífera, mas indistinta surpresa, porém, de não saber quando terminamos. Trago-te outra lua, Graciliano, uma lua póstuma. Deixar-te-ei mortal em meu imaginário, que suficiente és em tua solitude. Lua póstuma para Graciliano Soledad. Giuliano Escouto Souza