
A endocrinologista Sílvia Saraiva levou pessoas com diabetes a escalar montanhas, autorizou um doente a praticar pára-quedismo e foi mãe pela terceira vez aos 52 anos, quando já tinha dois filhos adultos. Aos 63 anos, continua a defender que os limites não devem ser confundidos com impossibilidades, mas também que a medicina exige planeamento, conhecimento e respeito pelas circunstâncias individuais de cada pessoa. Há quase 30 anos que organiza actividades desportivas para jovens com diabetes, incluindo expedições a alguns dos picos do mundo. Conta que os participantes a consideravam uma médica um pouco “louca”, até perceberem que as suas propostas resultavam. “Eu sou a mulher dos planos B”, explica, lembrando que por detrás de cada aventura estão vários cenários de segurança cuidadosamente preparados. Para Sílvia Saraiva, viver com uma doença crónica não significa abdicar de uma vida plena. Recusa a infantilização dos doentes e considera que a relação entre médico e paciente deve assentar na partilha de conhecimento e na confiança. “Eu tenho de respeitar as pessoas como adultas, tenho de respeitar a sua inteligência, não as posso tratar como crianças”, afirma. E acrescenta que a medicina não pode ignorar a singularidade de cada pessoa, as suas crenças, condições económicas ou circunstâncias familiares: “O doente tem de colaborar, não sei tudo, preciso que me ajude”. É também por isso que rejeita a culpabilização das pessoas com obesidade, uma doença crónica ainda frequentemente associada à falta de vontade ou de disciplina. Nesta conversa abordam-se os novos medicamentos injectáveis para emagrecer, defendendo a sua utilização com acompanhamento médico, doses ajustadas e tempo para modificar hábitos de vida. “Todas estas injecções deviam ser usadas como medicamentos e não como drogas. Têm de ser usadas na dose certa, com o acompanhamento certo, com a calma certa, com o tempo certo”, diz, criticando a procura de resultados imediatos e o risco de perda excessiva de massa muscular. “Ou seja, há que fazer as pessoas perceberem que emagrecer devagar está bem, não faz mal, podemos esperar. Usar estas soluções como compulsão, só para perder 10 quilos rapidamente, é um erro, mas é legítimo que os pacientes o peçam nesta sociedade do imediatismo. Os médicos é que não podem alinhar.” A especialista questiona também o recém-anunciado modelo de comparticipação para os tratamentos para obesidade através de injectáveis, que, segundo explica, restringe a prescrição comparticipada a especialistas dos serviços privados, quando muitos doentes enfrentam longas listas de espera para chegar a essas consultas de especialidade no SNS. “É fazer de conta que se está a fazer alguma coisa e não se está a fazer nada”, denuncia. Para Sílvia Saraiva, a prevenção continua a ser uma das grandes oportunidades desperdiçadas pelas políticas de saúde. Aos 52 anos, Sílvia Saraiva engravidou. Tinha já dois filhos adultos. Recorda uma gravidez tranquila, durante a qual continuou a praticar exercício físico, mas insiste que a sua experiência não é a mais comum, nem deve ser confundida com ausência de riscos. A reacção social à maternidade tardia também não passou despercebida, as expectativas externas sobre o envelhecimento feminino pesaram-lhe. Hoje, aos 63 anos, não esconde a idade nem a vontade de continuar activa e diz: “Eu tenho 63 anos e sou muito feliz porque já os tenho. A vida, para mim, é um contínuo de opções.” Subscreva Um Género de Conversa na sua aplicação de podcasts — como a Apple Podcasts ou o Spotify — e não perca os novos episódios disponíveis semanalmente às quartas-feiras. See omnystudio.com/listener for privacy information.