
Quando sofremos um grave dano, duas são as posturas comuns: minimizar o que aconteceu para esquivar-se da dor. Ou fazer do trauma a minha identidade, reduzindo o todo que somos àquilo que sofremos. Aparentemente opostas, essas duas formas de lidar com a dor nos aprisionam em um lugar comum: fixam grande parte de nossa energia psíquica no passado, limitando nossas possibilidades de vida. Entre a banalização da dor e o vitimismo, o convite para que se escolha encarar com sinceridade o que aconteceu, o reconhecimento dos danos, e – quando possível, a permissão para a reparação - dão abertura à um caminho do meio que se propõe a costurar o que estava separado. Os que estavam separados. O que em mim era fragmentado. A compreensão profunda das leis de causa e efeito, bem como da existência de um pano de fundo para além do aparente não reduzem a dor daquilo que experimentamos. Mas podem, sem dúvidas, nos libertar do cárcere do sofrimento eterno. Falamos da raiva que nasceu de agressões crônicas. Falamos da raiva contida que incendeia e destrói. Falamos da raiva enquanto reconhecimento e defesa de limites. Falamos da raiva legítima e da raiva enquanto energia de criação. Vamos falar de reconciliação? Vinheta: Mandril Audio. Soundtrack: Levi Patel Foto: aranprime