
Há mais de duas semanas que milhares de estudantes bloqueiam escolas secundárias e universidades por toda a França, a exigir mais meios e melhores condições de ensino. Nesta terça-feira, centenas de milhares de pessoas saíram à rua, entre alunos, professores e pais. O Governo responde-lhe com a criação de uma plataforma de diálogo, mas também com quase 7 000 detenções. Na Praça da República, em Paris, a RFI ouviu quem foi manifestar-se. O ambiente era jovial à chegada à Praça da República, no centro de Paris, onde milhares de estudantes, os seus professores e pais se reuniam para se manifestarem em apoio ao movimento estudantil que bloqueia escolas secundárias e universidades, há mais de duas semanas por toda a França. Esta terça-feira, entre 256 000 pessoas, segundo o Governo, e 450 000, segundo os organizadores, marcharam pelas ruas de várias cidades francesas por mais recursos para a educação e melhores condições de ensino No centro da praça, manifestantes reuniam-se à volta da estátua, uns até trepavam à estátua e deixavam mensagens como "alunos abandonados, juventude sacrificada". De repente, um jovem com um capuz que lhe cobria a cara começou a lançar foguetes de artifício. Um grupo de quatro amigas fugiu ao ouvir o som. Uma delas é a Saly, estudante universitária de 18 anos, que diz que percebe as reivindicações dos estudantes. Estou aqui para me mobilizar e apoiar os alunos do ensino secundário e, sobretudo, para melhorar as suas condições na escola. Porque isto não está certo. Não é suposto ser normal que, nos subúrbios, não haja professores, que as condições sejam deploráveis, que haja ratos nas salas de aula, que haja 32 alunos por professor; e eu não acho isso normal. Enquanto isso, quando vamos a escolas secundárias em Paris, elas têm tudo o que é preciso; simplesmente, isto não é normal. Por isso, mobilizamo-nos e apoiamo-los. Eu também frequentei o ensino secundário nos subúrbios, por isso sofri as mesmas discriminações que eles. O movimento eclodiu em meados de Setembro numa escola secundária de Créteil, um subúrbio de Paris, depois de estudantes se juntarem a uma greve dos professores que pediam mais meios para a escola. Os bloqueios estenderam-se rapidamente às periferias vizinhas, como Saint-Denis, o departamento mais pobre da França metropolitana, com os estudantes a exigirem mais meios materiais e a denunciarem os estabelecimentos em mau estado. Já na semana passada, escolas de todo o país, bem como universidades, juntaram-se ao movimento, bloqueando os seus estabelecimentos de ensino. Para além de pedirem mais recursos para a educação, os estudantes denunciam também turmas sobrelotadas e horários sobrecarregados. Um dos grandes problemas é a falta de professores: durante o ano lectivo 2024-2025, 7,5% das horas lectivas não foram asseguradas nos estabelecimentos de ensino secundário, de acordo com um relatório do Ministério da Educação Nacional. O sindicato de professores SNES-FSU calcula que, no início deste ano lectivo, faltava pelo menos um professor em 53% dos estabelecimentos do ensino básico e secundário, com disparidades regionais: em Créteil, de onde partiu o movimento, a percentagem sobe para 61%. Nas margens da praça, viam-se também pessoas mais velhas: uns eram pais preocupados, outros professores em solidariedade com os estudantes. Um destes professores era Hervé, de 45 anos, que explica que as reivindicações dos alunos são as mesmas dos professores: Na verdade, as reivindicações dos alunos são as mesmas das organizações sindicais dos professores; pedimos a mesma coisa. Nós, há anos que os vários governos nos andam a enrolar. Agora, desta vez, são os alunos que reclamam, que fazem as mesmas constatações que nós: não há professores suficientes, não há substitutos suficientes, não há recursos suficientes. É isso que nós pedimos há anos, uma vez que os nossos orçamentos são continuamente reduzidos. Portanto, o problema é que, na verdade, temos pela frente pessoas surdas, que praticam a mesma política há décadas: não há qualquer hipótese de dar mais dinheiro para a educação; serão apenas palavras: «Vamos recebê-los, vamos ouvi-los educadamente» e, depois, não darão seguimento às vossas reivindicações. Mas o que se passa é que temos um movimento de politização e que, daqui a seis meses, há eleições presidenciais. É aí que as coisas se tornam interessantes. Um dos temas recorrentes nas mensagens dos cartazes é a denúncia da resposta do Governo. Num cartaz, lia-se: "Demasiado jovens para nos ouvirem, suficientemente crescidos para levarmos com gás lacrimogéneo". Desde 28 de Setembro, quase 7 000 pessoas, na sua maioria menores, foram detidas e a Inspecção-Geral da Polícia Nacional, a "polícia da polícia", abriu 17 inquéritos sobre a conduta dos agentes, até esta quarta-feira. Já o ministro do Interior, Laurent Nuñez, disse, também na quarta-feira, que 716 polícias e 89 elementos do pessoal da educação ficaram feridos. A Amnistia Internacional França manifestou a sua "preocupação" face ao uso "desproporcionado" da força. Várias imagens de violência e de confrontos circulam nas redes sociais, como o caso do estudante de 15 anos que perdeu uma mão depois de lhe rebentar uma granada em Lens, no norte do país, ou o de outro estudante, de 14 anos, que perdeu vários dentes devido à explosão de uma granada de gás lacrimogéneo à queima roupa, no nordeste de Paris. A professora Louise, de 28 anos e membro do sindicato Solidaires, diz que a resposta do Estado "levanta questões sobre a liberdade de expressão". Os alunos do ensino secundário manifestam-se em frente à escola, há desacatos, a polícia intervém, há polícias que imobilizam alunos no chão e que os vão buscar quando eles tentam sair calmamente. Portanto, uma repressão tão forte como esta coloca realmente um problema quanto à forma como se gerem as reivindicações. E isso também levanta questões sobre a liberdade de expressão, porque os impedem de se expressarem. Como professores, queremos ouvi-los. Queremos ouvir os nossos alunos, queremos dar-lhes o máximo de liberdade de expressão possível, porque é importante que eles também se sintam seguros dos seus direitos. E esses direitos são deles. O Governo aproveitou para acusar o partido de esquerda radical, A França Insubmissa, LFI, de instrumentalizar o movimento. Na terça-feira, perante os deputados, o primeiro-ministro, Sebastien Lecornu, acusou a LFI de "atear fogo à situação" e de provocar o caos no país. Ontem de manhã, no X, dirigiu-se antes aos alunos, disse que "a voz” deles “é valiosa e deve ser ouvida" e prometeu "um plano de acção concreto". O ministro da Educação Nacional, Édouard Geffray, anunciou uma "plataforma de concertação" onde os alunos do ensino secundário poderão responder a duas perguntas: "Quais são as vossas dificuldades?" e "Quais são as vossas expectativas?". O Governo disse também querer corrigir as falhas da plataforma Parcoursup, utilizada para a entrada no ensino superior, criticada pelos estudantes por considerarem que se trata de um sistema de selecção opaco e desigual, dizendo também que é uma fonte de pressão psicológica. Este movimento estudantil surge num contexto de aumento do custo de vida e de cortes orçamentais, seis meses antes de uma eleição presidencial que decorrerá num clima de forte polarização política. Na semana passada, o Governo francês apresentou o projecto de orçamento para 2027, marcado pela austeridade. O plano prevê poupanças de 43 mil milhões de euros, com o objectivo de reduzir o défice para 5% do PIB em 2027. Na área da educação, o Executivo prevê o corte de cerca de 1600 postos de trabalho, dos quais 1250 correspondem a professores efectivos do ensino público, justificando a medida com o declínio demográfico, de menos 180 000 alunos para o próximo ano letivo. Os representantes estudantis consideram a resposta do Governo insuficiente e apelam a que os estudantes continuem os bloqueios.