
Episódio
Neste episódio, parto de uma provocação que tem me atravessado: por que, em uma época que exalta tanto a liberdade, a autonomia e o protagonismo, a gente parece cada vez mais cansado, ansioso e culpado? A partir de uma leitura histórica do empreendedorismo — de função econômica a ideal de existência —, eu vou explorando como esse discurso foi sendo apropriado pelo capitalismo contemporâneo até se transformar em uma exigência subjetiva constante. Trago a psicanálise para a conversa para pensar como esse imperativo de desempenho, produtividade e sucesso reorganiza o nosso sofrimento, deslocando aquilo que é social para o campo do individual. No contexto brasileiro, aprofundo a relação entre empreendedorismo e economia informal, refletindo sobre como a precarização do trabalho e o enfraquecimento de garantias passam a ser vendidos como liberdade, produzindo uma autonomia que, muitas vezes, aprisiona ainda mais. Também me detenho em algo que tem me preocupado bastante: como essa lógica chega cada vez mais cedo. Crianças e adolescentes sendo atravessados por uma cultura de performance, monetização e exposição, onde experiências fundamentais vão sendo substituídas pelo valor de mercado. Ao longo do episódio, tensiono essa “política do eu” e seus efeitos na nossa capacidade de existir em coletivo, propondo uma escuta do sofrimento que não o reduza a falha individual, mas que o compreenda como parte de um modo de vida que nos atravessa. Um episódio para escutar com atenção — e, talvez, com algum incômodo.