Episódio
A Etiópia foi a votos esta segunda-feira, 1 de Junho, para eleger os deputados federais e os representantes regionais, num escrutínio que deve garantir a continuidade do primeiro-ministro Abiy Ahmed à frente do Governo. Apesar da participação registada em várias cidades, as eleições decorreram sob críticas da oposição, num contexto marcado por conflitos armados, dificuldades económicas e exclusão de algumas regiões. A vitória do Partido da Prosperidade, liderado por Abiy Ahmed, nunca esteve em causa. A formação governamental partia como favorita para conservar a maioria parlamentar e garantir a continuidade do actual primeiro-ministro à frente do Governo. Ainda assim, a participação eleitoral levanta interrogações sobre o grau de mobilização da sociedade etíope. O padre José Vieira, missionário português que regressou recentemente da Etiópia após 13 anos de trabalho no país, descreve um ambiente de relativa apatia política nos meses que antecederam a votação. “O que foi mais evidente durante os últimos meses era ver os centros de inscrição para as eleições completamente vazios”, observa. Apesar de a Comissão Nacional de Eleições apontar para cerca de 50 milhões de eleitores registados, o missionário considera o número reduzido para um país com cerca de 130 milhões de habitantes. “Havia uma certa desmobilização em relação ao evento”, afirma. Abiy Ahmed chegou ao poder em 2018 envolto numa forte expectativa de mudança. Um ano depois recebeu o Prémio Nobel da Paz, sobretudo pelo acordo alcançado com a Eritreia. Hoje, a avaliação dos seus 8 anos de governação divide opiniões. O padre José Vieira reconhece transformações visíveis, particularmente na capital. “Adis Abeba não tem nada a ver com o que era há dez anos. É uma cidade muito moderna, com grandes avenidas”, afirma. Destaca ainda a construção dos chamados “corredores urbanos”, que incluem espaços dedicados a peões e ciclistas e que o Governo procura replicar noutras regiões do país. No entanto, alerta para as limitações desse modelo fora dos grandes centros urbanos. Em muitas localidades, diz, os projectos são afectados pela falta de fiscalização e pela corrupção. “A corrupção é um dos grandes problemas na Etiópia de hoje”, sublinha, apontando casos em que verbas destinadas a obras públicas acabam desviadas para proveito pessoal de responsáveis locais. A guerra que continua a marcar o país Embora a guerra do Tigray tenha terminado formalmente em Novembro de 2022, com os Acordos de Pretória, as suas consequências continuam presentes no quotidiano dos etíopes. “As pessoas no Tigré não têm tanto acesso a combustíveis e a outros bens de primeira necessidade como noutras regiões”, explica o missionário. Além das dificuldades económicas, persistem receios quanto a um eventual reacender das tensões armadas, alimentadas por rivalidades regionais e por interesses externos. Segundo o padre português, o Governo foi obrigado a concentrar efectivos militares na região do Tigray, deixando outras zonas mais vulneráveis. Na Oromia, onde trabalhou, as preocupações de segurança aumentaram significativamente. “Houve um momento em que nos aconselhavam a telefonar antes de viajar para confirmar se as estradas estavam seguras”, recorda. A instabilidade não se limita ao norte do país. Em Amhara e Oromia continuam activos grupos armados que desafiam a autoridade do Estado e contribuem para um clima de insegurança que afecta a vida quotidiana e limita a capacidade do Governo para projectar uma imagem de normalidade democrática. Jovens preocupados com o futuro Nas conversas com famílias, líderes comunitários e estudantes, José Vieira encontrou uma preocupação comum: o acesso à educação e às oportunidades de emprego. Nos últimos anos, o Governo introduziu novos exames nacionais com o objectivo de elevar a exigência académica. Contudo, os resultados têm sido preocupantes. “Há três anos, quando foi introduzido o novo modelo de exame de admissão à universidade, apenas 5% dos candidatos passaram”, recorda. No ano lectivo mais recente, a taxa de aprovação rondou apenas os 7%. O missionário considera que muitos alunos não estão preparados para o grau de dificuldade das provas. O problema torna-se ainda mais grave porque os estudantes que não conseguem aprovação ficam dependentes de instituições privadas, inacessíveis para grande parte da população. A situação gera frustração entre os jovens. Muitos concluem vários anos de formação superior, mas arriscam terminar sem diploma caso não obtenham aprovação nos exames finais obrigatórios. “Depois de três, quatro ou cinco anos de estudos, podem ficar sem nada”, lamenta. Inflação e escassez de combustível A economia constitui outra fonte de preocupação. A inflação continua elevada e o acesso a combustíveis permanece problemático em várias regiões. O padre José Vieira relata situações extremas vividas pelas comunidades locais. Num dos centros missionários onde trabalhou, dois veículos permaneceram semanas sem poder circular por falta de gasóleo. “Descobriram que o mercado negro dá muito mais lucro do que o negócio normal”, explica. O missionário recorda ainda casos em que funcionários tiveram de esperar mais de dois dias em filas para abastecer um automóvel. Nas semanas que antecederam as eleições verificou-se uma melhoria na distribuição. “Antes havia grandes filas. Nas últimas semanas a situação foi normalizada”, relata. Resta saber se essa normalização corresponde a uma solução duradoura ou se foi apenas uma medida temporária para garantir um ambiente mais favorável durante o período eleitoral. As autoridades etíopes apresentam estas eleições como uma demonstração de estabilidade e de consolidação democrática. No entanto, a ausência de votação em algumas zonas, as denúncias da oposição, os conflitos armados persistentes e os problemas económicos mostram uma realidade mais complexa. Para José Vieira, a Etiópia continua a viver um momento de transição. Entre os avanços nas infra-estruturas e as dificuldades sentidas pela população, o país procura ainda encontrar um equilíbrio capaz de transformar a promessa de reforma que levou Abiy Ahmed ao poder numa estabilidade para os seus mais de 130 milhões de habitantes.