
Felipe Rima é uma dessas pessoas que me ajudam a olhar o mundo com mais atenção. Poeta, rapper, palestrante e articulador da cultura hip-hop no Ceará, Rima carrega uma capacidade que sempre admirei: observar profundamente aquilo que acontece ao seu redor, encontrar palavras para o que percebe e transformar essa leitura em expressão artística. Neste diálogo, falamos sobre as mudanças do mundo, as novas referências que chegam às crianças, a paternidade, as diferenças entre gerações, dinheiro, conquistas, escolhas e a tentativa permanente de não perder a própria essência enquanto a vida se transforma. Mas uma história atravessa a conversa de maneira especial. Seu filho Lorenzo, de oito anos, foi discriminado por colegas na escola por ser considerado “pobre” e por, supostamente, não pertencer àquele lugar. A primeira reação poderia ter sido retirar Lorenzo da escola ou transformar o episódio em confronto. Rima e a mãe do menino escolheram outro caminho: permanecer, conversar, envolver a escola e transformar a situação em aprendizado para todos. “Nosso lugar é onde a gente quiser estar”, disse Rima ao filho. A partir daí, nossa conversa se amplia para uma questão que talvez seja ainda maior: O que fazemos com os conflitos que a vida coloca diante de nós? Rima fala de uma postura que vem aprendendo ao longo da própria história: antes de entrar numa briga, tentar compreender onde aquela situação pode realmente nos levar e perguntar: O que queremos transformar com isso? Falamos também sobre ascensão sem desenraizamento. Rima relembra a cafeteira elétrica que deu à mãe quando começou a ganhar dinheiro — e como, algum tempo depois, percebeu que junto com a praticidade havia desaparecido um pequeno ritual: a mãe esquentando a água, preparando o café no pano e os dois conversando enquanto o cheiro ocupava a casa. Era uma lembrança aparentemente simples, mas carregava algo essencial: a sensação de estar vivo e conectado à própria história. Talvez essa seja uma das grandes buscas presentes nesta conversa: avançar sem abandonar aquilo que nos constituiu. Construir uma vida melhor sem transformar riqueza apenas em dinheiro, consumo ou status. Romper padrões sem romper as próprias raízes. E criar para nossos filhos possibilidades que talvez nossos pais não tenham conseguido criar para nós. No final, Rima sintetiza tudo isso de uma forma bonita: em determinados momentos da vida, quando muitas coisas desaparecem, ainda resta aquilo que conseguimos preservar dentro de nós. A chama. Este diálogo é sobre cuidar dela. — GePeTo To hear more, visit maucuri.substack.com