
Renata Roth As ondas são anjos que dormem no mar, Que tremem, palpitam, banhados de luz... São anjos que dormem, a rir e sonhar E em leito d'escuma revolvem-se nus! E quando de noite vem pálida a lua Seus raios incertos tremer, pratear, E a trança luzente da nuvem flutua, As ondas são anjos que dormem no mar! Que dormem, que sonham — e o vento dos céus Vem tépido à noite nos seios beijar! São meigos anjinhos, são filhos de Deus, Que ao fresco se embalam do seio do mar! E quando nas águas os ventos suspiram, São puros fervores de ventos e mar: São beijos que queimam... e as noites deliram, E os pobres anjinhos estão a chorar! Ai! quando tu sentes dos mares na flor Os ventos e vagas gemer, palpitar, Porque não consentes, num beijo de amor, Que eu diga-te os sonhos dos anjos do mar! I Tenho um seio que delira Como as tuas harmonias! Que treme quando suspira, Que geme como gemias! II Tenho músicas ardentes, Ais do meu amor insano, Que palpitam mais dormentes Do que os sons do teu piano! III Tenho cordas argentinas Que a noite faz acordar, Como as nuvens peregrinas Das gaivotas do alto mar! IV Como a teus dedos lindinhos O teu piano gemeu, Vibra-me o seio aos dedinhos Dos anjos loiros do céu! V Vibra à noite do mistério, Se o banha o frouxo luar, Se passa teu rosto aéreo No vaporoso sonhar! VI Como tremem teus dedinhos O saudoso piano teu, Vibram-me n'alma os anjinhos, Os anjos loiros do céu!