
Francisco Mota Saraiva e João Dinis mergulham nas águas do arquipélago dos Açores à procura da suposta ilha de Fernão Dulmo, ao largo da Terceira, lugar de salvação sebastiânico e nostálgico de uma certa portugalidade que se anuncia desde sempre como o sonho por cumprir. “Mau Tempo no Canal”, de Vitorino Nemésio, é mais que a história do amor impossível de Margarida Clark Dulmo e de João Garcia; é uma estética bordada miudamente, e que com grande finura revela as variantes específicas do falar ilhéu, a gravidade do clima, da geografia e dos fenómenos geológicos, a angústia da condição insular, a contemplação da condição e da fragilidade humana, a existência ritualizada das gentes tomadas pelo capricho do conformismo, assim expondo não apenas um certo conceito de açorianidade, mas sobretudo um desejo de fuga impossível de alcançar. Enquanto isso, celebram o melhor da Costa Norte, um vinho da ilha Terceira, de 2023, da Adega Dimas, e preparam um arroz de marisco em que cabe todo o sabor e saber de ser português para um jantar que felizmente não serve de ceia.