
Vivenciar-se no fazer Sirlene Giannotti Este mundo em que vivemos nos descolou tanto dos fenômenos naturais e dos ciclos da natureza que é difícil compreender que o barro está na vida e tem vida. Através do barro, foram configurados o mito, as divindades e os elementos sagrados dos primeiros humanos que andaram por esta terra. Isso indica que, enquanto davam forma a essa matéria, eles também formavam a si mesmos e formavam sua cultura. Dar forma é formar-se, e nada é mais formador do que modelar o barro.Não é novidade para ninguém que aquilo que chamamos de manualidade, esse fazer com as mãos, foi progressivamente exilado não só da educação institucional, mas da vida cotidiana das pessoas. Na cultura do Ocidente, ao elegermos a razão, a mente, o pensamento, a palavra e, sobretudo, a palavra escrita como canais primordiais de acesso ao conhecimento, nós nos afastamos das competências do corpo como modo de entender o mundo. Os sentidos da corporeidade – a escuta, o paladar, o olfato, o tato e o movimento – foram excluídos das formas de aprendizagem, como se o conhecimento que vem deles não fosse válido diante do que se atinge com a articulação intelectual. Nas escolas e universidades, as experiências das sensações e da percepção deixaram de ser consideradas como parte dos processos formativos pessoais. Há o predomínio de um intelectualismo racionalizante que, ao ignorar o potencial criador dos sistemas perceptivos, também ignora a inseparabilidade entre mente e corpo – perceber é uma forma de conceber o mundo.A partir dessa crença na superioridade do pensamento, tudo que se relaciona à manualidade foi inferiorizado, incluindo o que chamamos de artesanato. A própria separação entre arte e artesanato se apoia em uma ideia de que a arte é uma atividade intelectual e a criação artesanal é exclusivamente uma manufatura isolada da compreensão, desconhecendo o valor do fazer com as mãos como prática simbólica, estética e cultural. De fato, o que chamamos de “artes”, assim como o conjunto das “artesanias”, representa uma gama enorme e variada de experiências expressivas culturais, mas essa distinção não é desigualdade, como nos foi instituído. A quem interessa tratar esses dois conjuntos com hierarquia? Na raiz desse enfrentamento excludente há um discurso de poder. Sempre interessou à elite da colonização europeia chamar o que lhe é próprio de arte erudita, e todas as manifestações expressivas estrangeiras, exóticas, receberam denominações que visavam ao rebaixamento do seu teor expressivo. Assim, falar em arte primitiva, “naïf”, tribal, popular, artesanato ou folclore implicou um rebaixamento. Esse é o vocabulário etnocêntrico que oculta os sujeitos que produziram os trabalhos quando eles são afrodescendentes, indígenas e pessoas das camadas menos favorecidas da sociedade. Como ceramista, sempre ouvi: “Isso é artesanato, não é arte!”, na intenção de abater meu trabalho. Respondia que, no conjunto de processos artesanais, há uma dimensão invisível, que só pode ser percebida no fazer e que intercepta o processo artístico. Do ponto de vista do objeto criado, é a sua recepção no circuito oficial da história da arte que o classifica como artístico, artesanal, cultura material etc., mas não há uma qualidade intrínseca que o defina como artístico. Seu significado simbólico é vivencial, já sua definição como arte vem de interpretações do mercado e do circuito artístico. Todo trabalho manual expressivo impacta a consciência a partir de uma conexão com a cultura. Constrói a subjetividade, é morada de transformações íntimas, opera uma expansão da percepção profunda. Mas isso não é visível no produto. Assim, como arte-educadora, cultivei uma abordagem a partir da perspectiva do processo criador. Nessa mirada se revela o engajamento de uma pessoa com uma matéria como processo formativo pessoal. Como pesquisadora, interessa-me investigar a singularidade da existência humana na relação expressiva e estruturante com uma materialidade primordial, como a argila.Eu tive o privilégio de ter uma educação familiar que envolveu a valorização da manualidade. Meu pai, um comerciante de materiais elétricos, se considerava um pescador. Era muito forte vê-lo tecendo suas redes de pesca com sua navete, construindo os losangos tão regulares. E minha mãe, normalista, vivia com duas agulhas de tricô nas mãos. Em qualquer lugar, seja no ônibus ou na espera de uma consulta, ela estava ali, tricotando. A rotina de vê-los criando coisas com as mãos foi fundamental e impactante para minha formação.Felizmente, o que importa é que, embora haja uma pressão social pela racionalidade, nada abafa o chamado do corpo. Em algum momento, nós somos convocados para uma vivência criativa com a matéria, que irá nos proporcionar outra relação com o mundo e com o tempo através dos sentidos. O corpo humano é um feixe complexo de sentidos, e dar sentido é anterior a conceituar. O bebê humano, muito antes de nomear as coisas, as percebe, e perceber é muito mais que receber informação. O bebê humano passa da imperícia do movimento até conseguir agarrar e experimentar o mundo com os sentidos: ele investiga o objeto, degusta, cheira, tateia suas texturas e temperaturas, pesquisa seus ruídos. Ao mesmo tempo, nessa ludicidade sensória, ele compreende o objeto e o utiliza para se expressar. Desde a infância, as nossas mãos escolhem, distinguem e operam. Ou seja, elas têm uma inteligência e uma imaginação.No livro A Caverna, o escritor português José Saramago fala sobre a vida de um oleiro. Ao detalhar o seu trabalho, o autor escreve que “são poucos os que sabem da existência de um pequeno cérebro em cada um dos dedos da mão, algures entre a falange, a falanginha e a falangeta”. Pensar sobre o cérebro dos dedos é uma alegoria linda. Precisamos de outro olhar sobre a importância das nossas mãos imaginantes.Sempre penso no que poderia emergir se a educação formal também mirasse o universo da produção artesanal, não apenas seus produtos, mas, sobretudo, os seus processos de criação. Que lugar ocupa a aula de arte na escola? O de apresentar a história da arte ocidental? De reproduzir obras consagradas em “releituras cultas”? De refletir sobre o contexto socioeconômico dos seus autores? Isso tudo é um enfraquecimento do potencial da arte.Como seria reabilitar o sensível como base de conhecimento? Oferecer aos estudantes a intimidade com as materialidades, compreender o tato como tônus de aprendizado? Os projetos pedagógicos que incluem os fazeres expressivos, quais sensibilidades eles são capazes de gerar? Pela minha experiência em ateliê para crianças e adolescentes, sei que pode emergir uma atenção ao cuidado nas relações, ao tempo das coisas, à compreensão da natureza em nosso corpo. Quando recebo estudantes em meu ateliê e mostro a eles a bananeira do quintal, vejo que não sabem do que se trata. Muitos param em frente ao gramado e me perguntam se podem pisar. Sem falar no trato com a própria argila: alguns, tão jovens, não se sentem capazes de experimentar, não se autorizam à experiência, não se arriscam a criar. Estamos formando crianças para quem a criação não é sinônimo de brincadeira. Além de usarem brinquedos prontos, são afastados da percepção do próprio corpo pela cultura digital.É necessário muito trabalho para que essas crianças voltem a tonificar o gesto e, assim, libertem a imaginação material, a fabulação das mãos e a ludicidade inventiva que já habitam dentro de nós. A soma das tradições indígenas, africanas e camponesas europeias, que formam a cultura brasileira, nos legaram uma arqueomemória artesanal, mas promovemos apagamentos de saberes ao negar esse legado para defender que o melhor jeito de aprender é pela imobilidade, pela atenção a um discurso racionalizante. É difícil conceber, mas já temos exemplos de escolas que acreditam na atenção à experiência do corpo no contato com elementos da natureza e que valorizam a imaginação. E a arte cerâmica, que incorpora em si todos os quatro elementos da natureza, é um caminho excepcional de aprendizado que poderíamos ter.A cultura ocidental nos apartou tanto dos fenômenos da natureza e nos impôs um tempo tão artificial de existência, que é difícil reconhecer que essa matéria – o barro – está na vida, tem vida e participa do ciclo de transformação do planeta. Vale lembrar que há três estados das rochas. A rocha magmática origina-se do movimento do magma do interior da Terra, que se resfria lentamente ou é expelido para fora da crosta rapidamente e se solidifica, formando rochas fortes e resistentes, como o granito. Há uma segunda categoria de rocha, a metamórfica, que é a que se forma quando uma nova intrusão de magma transforma as rochas preexistentes, formando, por exemplo, o mármore. A terceira categoria, das rochas sedimentares, é formada pela decomposição das duas anteriores pela ação de um conjunto de fatores externos, como a temperatura do sol que esquenta a superfície terrestre; a água da chuva que penetra as fissuras; o vento que carrega os grãos e a ação da gravidade que os deposita nos vales. Esses sedimentos permanecem lá por milênios e se recombinam em uma nova estrutura rochosa de uma qualidade mais quebradiça. É nesse estado intermediário que encontramos a argila: a nossa matéria de criação primordial perfeita. Por ser formada por grãos muito finos e pela presença da sílica, ela permite a modelagem. De fato, os primeiros seres humanos foram capazes de amassar, arranhar, bater, inscrever, moldar e habitar essa matéria. Ela foi nosso primeiro suporte expressivo.Foi na argila que os hominídeos inscreveram suas narrativas sobre o encontro, o amor, os animais, a caça e a comunidade. Eles também usaram esse mesmo material para modelar seres imaginários para os quais eles pediam chuva ou saúde. (Continua...) _ NARRAÇÃO VOZES DIVERSAS Narração: Dri Carvalho