
Vermelho pé de pombo Tiago Gualberto Quando eu era criança, lá em Minas Gerais, percebi que os períodos sem chuva eram acompanhados por muita poeira de terra. A vegetação, as casas e toda a paisagem eram polvilhadas por aquele pó fininho. Quando os caminhões carregados de minério de ferro cruzavam a cidade de Igarapé, em um vai e vem constante, montes de poeira se acumulavam na beira das estradas, formando grandes nuvens avermelhadas. Passei a coletar amostras desse pó em pequenos saquinhos e garrafinhas de plástico. Meus pés ficavam impregnados daquela cor. As outras crianças do bairro chamavam aquela cor de “vermelho pé de pombo”. Como se inventa uma cor? Como damos nome às cores? De onde vêm esses títulos? Os pigmentos são substâncias que, quando aplicadas em determinada superfície ou material, conferem a nós a percepção da cor através da luz. Somos cercados por uma infinidade de cores e, portanto, de pigmentos. De acordo com sua natureza, os pigmentos podem ser mais resistentes, mantendo sua cor estável ao longo do tempo, ou desbotar com mais facilidade, esmaecendo conforme aumenta a incidência da luz do sol. Algumas cores podem se manter vivas por anos, séculos ou até milênios! A terra é uma das maiores fontes de pigmentos perenes, além de possuir uma gigantesca diversidade de tons e nuances. Como se descobre uma cor? Caminhe com o olhar atento às cores da terra. Não se esqueça de portar pequenos recipientes para coletar as amostras. Você pode precisar de uma colher ou um utensílio de madeira para escavar e fragmentar os torrões e grãos maiores. A umidade pode alterar a tonalidade da amostra de terra. Por isso, coloque-a ao sol para secar sobre uma superfície limpa. Use uma peneira para obter um pó fininho. Quanto mais seca a terra, mais fácil será para peneirá-la depois. Cuidado para não misturar as diferentes amostras. Assim, você terá cores mais distintas.Para aplicar a cor através dos pigmentos, precisamos de um bom aglutinante. Cola branca, gema de ovo ou grude de polvilho podem ser utilizados para a produção da tinta. Além de unir os minúsculos grãos de terra, o aglutinante pode conferir uma consistência especial à tinta. Em uma vasilha, misture duas colheres de sopa de terra peneirada e seca e uma colher de cola branca (PVA). Ainda com o auxílio da colher, adicione, aos poucos, pequenas quantidades de água. Controle, cuidadosamente, a adição da água para obter a consistência de acordo com a aplicação. Superfícies impermeáveis ou ásperas, como tábuas ou paredes, requerem tintas mais espessas. Superfícies porosas e absorventes, como o papel, aceitam tintas mais líquidas. Até aqui, utilizamos os seguintes materiais: - Saquinhos plásticos ou recipientes para coleta das amostras de terra - Colher de metal ou pedaço de madeira- Vasilha para misturar a tinta - Terra seca, de cor uniforme - Peneira- Cola branca (PVA) - Água limpa- Folha de papel branco - Pincel Qual memória essa cor desperta?Aplique a tinta de terra sobre uma folha de papel branco com o auxílio de um pincel. Observe a cor, sua textura, a maneira como reflete a luz. Atribua um nome a ela. Para isso, pense nas suas memórias sobre o local onde ela foi vista por você pela primeira vez, relembre os elementos da paisagem ao seu redor. Que significado esse lugar tem para você e para as outras pessoas que vivem ali? Caso essa experiência seja feita coletivamente, aproveite a oportunidade para construir uma paleta de cores. Vocês poderão trocar amostras de tinta ou compartilhar o uso. O que cada uma dessas cores e as histórias de seus respectivos nomes podem nos oferecer? _ NARRAÇÃO DEF ACESSIBILIDADE E CULTURA Narração: João Paulo Lima