
O barro é o devir Rachel Hoshino Estar em transformação é uma experiência que tanto o barro quanto a diáspora materializam. Entre lançar-se para o futuro e para o incerto, como uma semente, e brotar em solo novo, existe uma construção constante. Essa é a construção de todos nós, mas, para um ceramista imigrante ou descendente de imigrante, isso é quase palpável através da própria cerâmica: é a terra do nosso chão brasileiro trabalhada por uma mão que tem uma forma de agir embebida em outra cultura.Conta-se que o primeiro objeto doméstico de cerâmica a ser criado no mundo foi a cuia. Sob as cinzas das fogueiras ancestrais que se apagavam, o chão de barro craquelado formava pequenas placas curvadas e duras, que reproduziam a concha gerada pelo gesto de duas mãos juntas ou a casca de um coco aberto. Essas lascas resistentes, que podiam conter montes de comida e água, foram, provavelmente, os primeiros recipientes cerâmicos de que se tem notícia. Por esse motivo, quando no Japão se pergunta o que contém uma cuia ou uma tigela, costuma-se responder que elas não só têm muita história, como contêm a narrativa da humanidade dentro delas. Objetos domésticos nos contam histórias sobre nós mesmos.No Japão, as primeiras cerâmicas, desenvolvidas junto com o manejo do fogo, datam de 14.500 anos a.C., em um tempo em que a produção artesanal de objetos de uso cotidiano não era separada da produção de objetos que faziam parte de rituais mágicos ou religiosos. Tradicionalmente, na cultura nipônica, as artes manuais não exigiam uma separação entre a função utilitária e a função artística: tudo era pensado na esfera ritualística. Havia uma aura espiritualista de respeito desde o gesto de retirar o barro do meio ambiente, para manejá-lo e passá-lo pelo fogo, até o momento em que um alimento é servido dentro da peça modelada. A cerâmica fazia – e ainda faz – parte intrínseca da cultura japonesa, assim como a língua materna, como o ar, como o telhado de uma casa ou como o chão sobre o qual se pisa.Até a segunda metade do século 19, quando o Japão se abre ao Ocidente, um objeto utilitário era tratado com a mesma nobreza que um objeto decorativo, tal qual vemos hoje em um museu. Isso porque, para os japoneses, tudo é envolto pela consciência de interdependência, tudo é sagrado: o servir, o alimentar-se, o guardar e o preparar. Essa divisão que nós, ocidentais, costumamos reforçar entre as peças utilitárias e as artísticas, decorativas ou religiosas, no Japão, é muito mais sutil.No famoso livro O Elogio da Sombra, publicado pela primeira vez em 1933, o escritor japonês Jun'ichirō Tanizaki faz uma crítica ao excesso de luz que chega ao Japão com a abertura ao Ocidente. Ele mostra como a luz elétrica e os banheiros azulejados acabaram com o encanto oriental, que valorizava o escuro e as sombras. Os banheiros ficavam fora das casas, e os vasos eram buracos escuros com ramos de eucalipto para tirar o mau odor. Quando alguém ia ao banheiro à noite, acabava observando a paisagem externa – simplicidade poética que acabou com a assepsia e a claridade ocidentais. Essa simplicidade, chamada de Shibumi, estava presente em todos os momentos do dia: um raminho de capim de arroz colocado em cima da mesa já se tornava motivo de apreciação.O mesmo aconteceu com as cerâmicas, que antes eram rústicas e não esmaltadas e, com a abertura ao Ocidente, passaram a ser substituídas pela porcelana extremamente branca e brilhante. Principalmente depois da Segunda Guerra Mundial, quando o Japão precisou se reerguer, os ateliês de cerâmica se voltaram para a exportação e tudo se tornou esmaltado e brilhante. No entanto, a vinda de ceramistas japoneses ao Brasil ajudou a preservar a cerâmica rústica, que hoje vem sendo novamente valorizada no Oriente.A primeira leva de imigração japonesa no Brasil acontece no início do século 20 e é formada por pessoas que vêm para trabalhar como mão de obra rural para substituir os povos escravizados nas lavouras. Junto com esse grupo, as cerâmicas chegam como relíquias que guardam em si a memória dos hábitos do Japão. Elas eram colocadas em um lugar de destaque nas casas e usadas somente em ocasiões especiais, como casamentos e festas de ano novo.Já a partir da década de 1960, acontecem a segunda e a terceira levas de imigração japonesa no Brasil, dessa vez com vários artistas, técnicos e estudiosos da cerâmica, que vêm fugidos dos horrores da guerra e em busca de um lugar para existir com mais qualidade e liberdade artística. Quando esses artistas – e outros, que nasceram no Brasil, descendentes da primeira corrente imigratória – começaram a aparecer em exposições individuais e a ter suas peças compradas por pessoas influentes na sociedade paulista, outros ceramistas foram incentivados a vir, criando-se uma verdadeira tradição cerâmica nipo-brasileira no campo artístico. Na década de 1980, alguns desses artistas começam a circular a partir da atenção de críticos de arte, galeristas e colecionadores; e, no fim da década seguinte e início dos anos 2000, eles, finalmente, se consolidam no circuito das artes com festivais, congressos e associações.A entrada desses profissionais japoneses e de seus descendentes é muito recente no Brasil e nos mostra várias adaptações em relação à cerâmica feita no Japão – o barro é outro, a terra é outra, o esmalte é diferente e as ferramentas disponíveis também são outras. É uma arte que não é japonesa. Ela bebe da tradição japonesa, mas, como uma semente, atravessa territórios e desponta em outro solo, à sua maneira. É uma arte que só pôde acontecer da forma como acontece porque está em território brasileiro. Muitas mulheres ceramistas que fazem parte dos artistas reconhecidos, por exemplo, só se tornaram referências porque estavam no Brasil. Talvez, no Japão, elas não tivessem tido a chance de se desenvolver como artistas independentes e empresárias. A prática da cerâmica desenvolvida por essas pessoas não é nem japonesa nem brasileira, mas incorpora um trânsito entre as duas culturas.Esses artistas que vieram do Japão para o Brasil são de uma geração que tem a cultura japonesa muito arraigada, mas que pôde se libertar da tradição e reinventar seu modo de fazer e viver a cerâmica. Já os que nasceram no Brasil, descendentes de japoneses, parecem olhar para trás, buscando a ancestralidade para entender o que eles são aqui. A partir dos meus vinte e poucos anos, comecei a olhar para minhas raízes japonesas, buscar respostas e entender que lugar é este que eu ocupo hoje. Como filha do encontro de um japonês com uma carioca luso-alemã, tenho na bagagem a riqueza e a ambiguidade de um ambiente familiar multicultural de imigrantes. É essa experiência que me fez, por meio da cerâmica, olhar para minha ancestralidade e entender por que estou dando esses frutos aqui, nas terras do Brasil.Todos nós estamos em trânsito, em constante transformação. No entanto, para o caso de um imigrante que sai da sua terra e vai para outra, essa condição é muito mais evidente. A sua identidade de origem se transforma em outra na relação com um novo solo e com uma nova cultura. Entre lançar-se para o futuro e para o incerto, como uma semente, e brotar em solo novo, existe uma construção constante. Essa é a construção de todos nós, mas, para um ceramista imigrante ou descendente de imigrante, isso é quase palpável através da própria cerâmica: trata-se da materialidade da terra, do barro do nosso chão brasileiro, trabalhado por uma mão que tem uma forma de agir embebida na cultura japonesa.Estar em transformação é uma experiência que tanto o barro quanto a diáspora materializam, através da sua impermanência e da constante mudança de estados. Estar em trânsito como imigrante se parece muito com o trânsito dos estados do barro, que é ora mole, ora duro, ora seco, ora úmido. Se observarmos essa experiência, como fazem os japoneses, veremos que as cerâmicas produzidas por essas pessoas em diáspora apontam para o intervalo, para o que vem depois do agora, para o espaço de suspensão temporal em que o próximo acontecimento é gestado. São como um túnel, uma passagem, um abrigo temporário, um broto ou uma semente em voo, uma estrutura que não se sabe se está nascendo ou morrendo. São objetos que apontam para o mistério em relação ao que vai acontecer, ao que pode vir a ser. O barro, assim como a condição do imigrante, é o devir.O mestre ceramista Megumi Yuasa costuma dizer que o planeta Terra é uma enorme cerâmica girando no espaço, um grande produto do barro. De fato, nossa relação com a terra é ancestral, assim como a predisposição dos japoneses – e de vários povos originários – em observar o que se planta, o que se come, o que vem da própria terra. Existe uma comunhão de todo ceramista com os processos da vida que ele observa: o ceramista é como um broto que rasga a terra em busca da luz do sol.Pensar a nossa experiência no mundo como seres da terra, tais quais as raízes e as sementes, tem uma relação com a disposição japonesa para a observação dos fenômenos da natureza. Mesmo nas agitações das grandes cidades, existe um estado comum de contemplação, observação e pausa. Isso é uma dança com o tempo. Falar de transição é falar de tempo, e a cerâmica, originada do barro em constante transformação, é uma das coisas que aparentam capturar o tempo, porque aquele gesto que o fogo estruturou é um pedaço de tempo aprisionado em terra queimada. A cerâmica é primitiva, visceral, mas também muito espiritual e filosófica.Essa cerâmica rústica, com pouco esmalte e queimada a altas temperaturas em fornos a lenha, que veio com os imigrantes para o Brasil, articula-se com uma filosofia estética japonesa chamada de Wabi-sabi. Trata-se de um estilo de vida em que a passagem do tempo e a impermanência das coisas são apreciadas. (Continua...) _ NARRAÇÃO VER COM PALAVRAS Narração: Andréia Paiva