
Exercícios para grãos e gotas de barro Josi Com mais água, caldo grosso, lama densa, risco rápido, poça turva. Com mais terra, um rastejo até chegar num formigueiro, de maria-pobre a joão-de-barro, casa sua.Aqui, vão convites para sentir as presenças da terra e da água ao nosso redor e as possibilidades de encontros que ainda resistem para nossos barros. Essas vivências são irmanadas de minhas práticas artísticas, que têm me levado a uma auscultação de terras e águas para corporificar imagens. A escassez das cidades já me levou a coletar terra em buraco de asfalto, enquanto ele não derrete, como no dizer do pensador quilombola Nego Bispo. Além da terra, a água, o outro ingrediente vital desse encontro de barro, também é vista além da disponibilidade do girar da torneira que ilude jorrar ao infinito. A ideia é fazer três preparos de barros, bebendo dos caminhos reais e fabulatórios de seus encontros, que podem ser recriados e aumentados livremente. As duas primeiras ações envolvem buscar as gotas e os grãos de terra e água no espaço em que se vive, e a terceira é uma sugestão de lavagem de raízes que evoca a caminhada ancestral de um barro argiloso, em sua característica de um vir a ser que dá liga, adquirido no rastejo do tempo. Pensar nele a partir das linhas das mãos dos mais velhos, entrelaçadas às linhas das raízes de plantas, é um caldo temperado nas conexões ancestrais para imantar raízes em pátios, calçadas, asfaltos e paredes. Para encontrar grãos de água e gotas de terra, que se erguem, rastejam, escorrem:Se você pisa no asfalto, deve olhar para as trincas, porque sempre existe uma. Talvez um buraco, trilha onde nasceu mato na fissura. Ou, quem sabe, você ache terra na unha de um pombo, um recado de longe? É bom fazer ouvidos! Ou um risco de pó que ainda respira em algum rabanete, no sacolão, na raiz de um alface? Raízes podem resistir terra. Se você pisa mais é no chão batido, na poeira, vão cair muitas gotas. Vai precisar dar um passeio, bom, descalço, ir farejando as cores que se acendem no chão. Repita algumas vezes até sentir que tingiram muitas linhazinhas na curva das unhas dos seus pés – você vai ter um arco-íris esticado quando abrir os dedos. Depois, vá atrás de umas xicarazinhas de uma água cantando perto e de uma correndo longe. Tem um rio, curralinho? Torneira, uma biquinha, filtrada, engarrafada, da chuva, ácida, cuspe, riachinho? Poço, curva do mandacaru, mar, sal ou só tem esgoto? Não serve. A linha da lonjura que seu ouvido escutar e a distância que percorrer vão lhe dar as matizes das correntezas que ainda respiram no seu entorno.Misture grãos de água na terra, use as mãos ou os pés, goteje até obter uma massa e amasse, sem pisotear. Você pode ver nascer uma raiz, uma botija, uma cuia, uma cura. Talvez você pense em modelar um abrigo para um cupinzeiro ou para um buraco de tatu – costuma dar essa vontade. Depois de pronto, deixe secar e, se quiser, pode até ralar o barro e começar de novo, num retorno. Se faltar terra nessa medida, nada nasce e a água evapora.Agora, misture gotas de terra na água, use as mãos ou os pés, até virar um caldo, que pode ser ralo ou mais denso: pode ser que nasça uma poça, um mangue, uma enxurrada. Se fizer um abrigo, não crie barragem. Se faltar água, desanda tudo e isso aí sobe poeira e some tudo num redemoinho. Num exercício de barro mais fundo, convide um mais velho da família: a vó, vizinhança, parente bem vivido, para ajudar. Tem que achar uma raiz, uma planta no quintal, naquele mato que brotou no asfalto, só não presta é raiz de plástico! Arrume uma cumbuca, peça ao mais velho para começar a banhar e vai aparando o caldo. Você vai ver as linhas que se ligam umas nas outras aparecerem nas mãos. Se for uma raiz de açafrão, você já vai ter um barro com sol desenterrado e, então, pode acender um caminho para guiar outro cheio de liga. Se for uma raiz de taioba, ela vai aparecer iminhocada, que nem uma isca para puxar o barro para correr no escuro!A raiz pode ser pincel para desenhar barreiros e rios no asfalto, polvilhar no cimento, no chão da escola, na calçada, no terreiro. Ou para abrir cores numa parede, rastejar uma serpente, como daquele arco-íris que veio na unha dos seus pés, do chão. _ NARRAÇÃO DEF ACESSIBILIDADE E CULTURA Narração: João Paulo Lima