
Tudo é terra Maria Aparecida Leite e Marli de Jesus Costa Da terra, vêm os alimentos, os remédios e tudo que precisamos para trabalhar. Por isso, a tratamos sempre com muito respeito, tirando dela apenas o necessário para o nosso sustento, pois, se alguma coisa é retirada sem grande necessidade, a terra cobra depois. O tijolo que constrói uma parede é feito de terra, o cimento que vem da pedra está na terra, a telha é feita da própria terra. Nada vem do ar, tudo é da terra, tudo é terra.Na comunidade quilombola do Curtume, no Vale do Jequitinhonha (MG), todo mundo planta, colhe e compartilha. Se falta algo em casa, como um alimento ou remédio, os vizinhos partilham um pouco do que têm e já dão também a muda ou a semente para que possamos continuar plantando. Nós colocamos a semente na terra molhada e zelamos por ela, que, em troca, cuida de nós e oferece tudo que precisamos para viver. O dia em que não vamos à roça é uma tristeza, porque amamos a nossa cultura. São muitos anos de contato, de cultivo e de cuidado com a terra, que aprendemos, desde crianças, com os mais velhos.Nossas famílias nasceram e cresceram na comunidade do Curtume, e não faz muito tempo que nossa terra tem título de quilombo. Isso aconteceu só em 2017, mas a comunidade é muito mais antiga. Já deve ter por volta de uns 400 anos desde que os negros, misturados com os brancos, começaram a viver e a trabalhar juntos, aqui, construindo a nossa história ao longo desses anos todos. Não temos problemas graves, mas, sim, a nossa luta e o trabalho do dia a dia, que nós fazemos juntas e com muita alegria.Em fevereiro de 2024, choveu muito no quilombo, mas, normalmente, não é assim nessa época do ano. Teve tanta chuva nesse mês que todo mundo ficou admirado. Era água para todo lado. Antes, foram tantos meses de sol que a terra ficou seca e as pessoas já estavam sem fé de que choveria logo. Nós perdemos a primeira plantação, mas não perdemos a esperança, então oramos para que a chuva viesse logo. Quando começaram os primeiros pinguinhos d’água, que logo trouxeram bastante chuva, nós pudemos colocar, de novo, as sementes na terra.A maioria das pessoas vê o nosso Vale do Jequitinhonha como um lugar cheio de miséria. É claro que temos as nossas dificuldades, mas aqui é também o lugar onde colhemos tudo que plantamos. Nós temos seca, mas também temos fertilidade da terra e, ao pensarmos dessa forma, preferimos olhar para o nosso território como aquilo que ele realmente é: o vale da alegria e da beleza. Se soubermos trabalhar e respeitar a natureza, teremos tudo que precisamos, pois a terra é generosa e sempre multiplica aquilo que colocamos nela – se você plantar um grão de milho, por exemplo, a terra oferece de volta três espigas. Aqui, comemos aquilo que plantamos e colhemos com as nossas mãos; vestimos as roupas costuradas por nós, com o algodão que plantamos aqui; vivemos nas casas que nós mesmas construímos com o barro. Basta aprendermos com os mais velhos, trabalhando com alegria e respeito, que a terra nos dará tudo.Da terra vêm os alimentos, os remédios e tudo que precisamos para trabalhar. Por isso, a tratamos sempre com muito respeito, tirando dela apenas o necessário para o nosso sustento, pois, se alguma coisa é retirada sem grande necessidade, a terra cobra depois. O cuidado das roças é feito com nossas mãos e ferramentas, sem queimadas ou agrotóxicos. Ao evitarmos contaminar a terra com veneno, também evitamos colocar produtos químicos no nosso corpo. Às vezes, é necessário consultar os médicos e tomar os remédios receitados por eles, mas quase sempre, quando precisamos de um tratamento para a saúde, tiramos uma raiz ou uma folha, fazemos um chá, um banho ou uma inalação. Cultivamos nossos remédios nas hortas, além de conhecermos e respeitarmos o que a natureza já nos oferece por si própria.Para plantar, é preciso observar a natureza e aprender a esperar o momento certo. Com a primeira chuvada, podemos começar a colocar as sementes na terra. Depois, esperamos a vinda da segunda chuvada para termos certeza de que a semente vai brotar. Se a terra não está preparada, a semente engrunha e não nasce ou, se nasce, acaba morrendo pouco tempo depois. Quando vêm a chuva e o calor, a terra enverdece e se prepara para receber a semente. Se a terra está quente, a semente brota e se desenvolve. Se a terra está fria, quando a semente consegue nascer, o broto fica fraco e cai com facilidade. Quando a terra está molhada de chuva, plantamos milho, feijão-gurutuba, feijão-guandu, amendoim, variedades de batata, de mandioca, de cebola, além de pimentas de tudo quanto é tipo, arroz, caxixe, cabaça, melancia, abóbora, abobrinha, enfim, de tudo um pouco. Já quando as chuvas diminuem, a partir de março, chega a época de fazer a roça de hortaliça, com couve, cebolinha, alface, entre outras.A lua orienta nossos fazeres e nos ensina o melhor momento para plantar cada coisa – se plantarmos na lua errada, o resultado não será bom. No caso das plantas que nascem dentro da terra, como a batata e a mandioca, pode-se plantar a qualquer momento, mas as mudas só podem ser tiradas na primeira lua nova de setembro. Caso contrário, a planta fica fraca e é atacada por carunchos, nasce muita rama e nenhuma batata, fica cheio de embira e não vem a mandioca. Precisamos que as plantas gerem boas sementes, fortes e sem fungos, para que possamos plantá-las depois no roçado novo.Não tem coisa mais bonita e cheirosa do que um campo de arroz maduro, com as folhas verdinhas, o grão amarelinho e aquele barro preto embaixo dos pés das plantas. Para que os grãos fiquem fresquinhos, o arroz colhido é guardado no balaio barreado, um cesto feito de palha com barro passado em volta. O paiol, que é o local onde guardamos as sementes que serão plantadas no novo roçado, é feito de madeira e barreado à mão, o que faz com que as sementes fiquem sempre preservadas. Para termos um barro sem rachaduras e uma colheita sem fungos, tudo isso precisa ser feito na lua fraca, não pode ser nada na lua forte.Na lua fraca também pegamos os cipós e varas usados para fazer as camas em que dormimos. Para aumentar a resistência desses materiais, eles são colocados dentro do córrego e ficam lá, mergulhados, por cerca de oito dias. Depois desse processo, a cama dura 40 ou 50 anos, às vezes, até mais. Também esperamos a lua boa para tirar a casca das árvores e para fazer o tingimento dos tecidos. Tudo isso é feito com respeito e sabedoria, sempre pedindo licença à natureza. Não se pode ofender a terceira pele da árvore porque, dessa forma, ela morre. Tiramos só da primeira até a segunda pele, tomando cuidado para não dar a volta no tronco. Esse conhecimento vem dos mais velhos, que já faziam as roupas de cama e de vestir, tudo com tingimento natural.Antigamente, na época das nossas avós, não tinha outro jeito de se vestir que não fosse plantando o algodão, colhendo, descaroçando, fiando, fazendo as meadas e tingindo no lameiro. As roupas ficavam alguns dias mergulhadas no barro, junto com cascas de pequi, aroeira, tinteiro ou urucum. De vez em quando, a tingideira ia lá, revirava aquela roupa e, quando via que ela já estava no ponto, tirava para lavar com sabão de mamona. A tinta feita no lameiro é a mais forte que tem – e não sai por nada. Hoje, nós tingimos nossas peças no tacho, que é menos trabalhoso que no lameiro. Aprendemos tudo isso observando as mais velhas e a natureza, mas esses saberes também estão no nosso sangue, brotam em nós, assim como as sementes na terra.Com esse mesmo olhar atento, aprendemos com os cupins a fazer as nossas casas de terra. O cupinzeiro aguenta a chuva, o sol e o vento sem desmanchar – isso acontece porque a saliva do cupim deixa a terra resistente à água. Misturamos a terra do cupinzeiro ou do formigueiro com a bosta de vaca para barrear as nossas casas, tampando todas as madeiras da estrutura – não é rebocar que se fala, pois o reboque é feito com colher, e nós barreamos com as mãos. Depois que seca, passamos mais barro nas paredes, em uma ou duas camadas, com as mãos e o auxílio de um pano para que fique mais liso. Nada desmancha uma casa barreada, só se Deus quiser, mesmo.As casas são pintadas com tinta de terra, feita a partir da mistura com cola, fubá, grude de goma ou baba do cacto. Aqui, nós temos várias tonalidades de barro e cada pessoa escolhe a sua preferida – cinza, branco, azul, vermelho, amarelo, alaranjado, preto, marrom, rosado e muitos outros. As tintas de terra são duráveis, não descascam e não desbotam com a chuva. A coisa mais linda do mundo é uma casa barreada, com potes de barro, filtro de barro, panelas de barro, forno de barro, telhas artesanais de barro, enfim, barro em todos os lugares. Isso é uma maneira de viver a nossa ancestralidade, olhar para a natureza todos os dias, admirá-la, usufruir dela e respeitá-la.As mulheres costumam ir e voltar do barreiro, juntas, sempre cantando e se apoiando. Tem vezes que o barro está molhado e mais fácil de tirar, e, em outras vezes, ele está tão duro que chega a sair fogo na alavanca. Mas, quando cantamos, o serviço fica mais leve e mais alegre, afastando o cansaço. Cantar na natureza, para nós, é uma forma de celebração e de gratidão por tudo que ela oferece. Celebramos a bênção de uma boa plantação e de uma boa colheita, cantamos a alegria de ir para a roça com os pés no chão, capinar, sentir a natureza e ficar com as unhas cheias de terra. Hoje, muitas pessoas das novas gerações já não querem esse contato com a natureza e, quando se sujam, se afastam. Temos até um canto de tirar barro que fala sobre isso: Cadê minha companheiraque cantava aqui mais eu? Enfiou a unha no barroe desapareceu Para plantar, existe todo um ritual – que, apesar de já ter sido muito forte, tem diminuído ultimamente. (Continua...) _ NARRAÇÃO Claudio Rubino Participação: João Paulo Lima