
As histórias que a terra conta Helena Lima A arqueologia está o tempo todo construindo novas versões do passado, que irão apontar para quem seremos no futuro. Nesse sentido, a cerâmica encontrada na Amazônia é um veículo de reescrita da história. Ela nos ensina que não existe pré-história, algo que ocorreu antes do que chamamos de história, mas, sim, outra história a ser contada, muito longa e essencialmente indígena. Nossa história é apenas uma dentre muitas, e outras tantas ainda serão contadas.Durante muito tempo, fez parte do senso comum a ideia de que a Amazônia sempre foi um lugar intocado e não favorável ao desenvolvimento de sociedades humanas. Muito dessa ideia surgiu do fato de que nunca se encontraram ali ruínas de estruturas de pedra como as dos territórios Maias e Incas, além de os registros científicos do século passado documentarem a presença de apenas poucos grupos indígenas espalhados pela enorme área de floresta que ocupa o solo brasileiro. Desde os anos 1940, acreditou-se que a condição dos escassos povos indígenas encontrados na Amazônia, na época, era um retrato do que teria sido o mesmo ambiente no período pré-invasão europeia.O que pouco se fala é que os povos documentados no início do século passado vinham de uma trajetória de violência colonial acumulada que dizimou grande parte da população da Amazônia. Esse retrato foi usado pelas ciências para defender o quanto esse território enorme, verde e biodiverso estava pronto para ser explorado em nome da marcha do progresso. Além disso, por desvincular as “culturas arqueológicas” antigas daqueles povos indígenas, a arqueologia também ajudou a construir a nossa história oficial, uma história que apagou as narrativas indígenas e que dizia que a Amazônia era um território inóspito e incapaz de abrigar o desenvolvimento de sociedades complexas. Muitos anos se passaram e, hoje, as ciências humanas, principalmente a antropologia e a arqueologia, começaram a se descolonizar e a desconstruir algumas “verdades” instituídas há muito tempo. Como arqueóloga, eu fico feliz de ver, acompanhar e participar de um processo de transformação dessas disciplinas. A interiorização das universidades e a recente ampliação das políticas afirmativas no Brasil trouxeram outros grupos sociais e outras visões de mundo para dentro da academia. E essa transformação está diretamente associada à incorporação de outras vozes, outros modos de ver, fazer e construir ciência, vindos, muitas vezes, da presença de acadêmicos de comunidades tradicionais dentro das universidades. Hoje, para que a arqueologia seja realmente relevante, ela é feita junto com as comunidades e com os povos indígenas. Como ciência, ela é uma ferramenta construtora de discursos e de narrativas sobre o passado, e as narrativas que queremos fazer emergir são justamente aquelas que foram apagadas pela história oficial.Nesse contexto de novas descobertas, o barro é um veículo de reescrita da história: as escavações na Amazônia têm revelado uma quantidade enorme de cerâmicas produzidas em tempos antigos pelos povos originários, o que indica que a presença de sociedades humanas na floresta remonta a milhares de anos atrás. As cerâmicas de Taperinha, localizadas nas proximidades de Santarém (PA), chegam a ter 7.000 anos de idade, sendo as mais antigas das Américas. A essa antiguidade da tecnologia cerâmica na Amazônia soma-se uma enorme diversidade, atestada pelos estilos encontrados em toda a região. Para citar apenas alguns exemplos, na região do litoral amazônico, encontram-se cerâmicas Mina datadas entre 6.000 e 1.000 anos atrás, e, no sudoeste da Amazônia, em Monte Castelo (AM), há cerâmicas de até 4.000 anos de idade. De 3.000 a 2.000 anos atrás, uma profusão de estilos interconectados já ocupa toda a calha do Amazonas. Isso nos ajuda a desconstruir o discurso de que a complexidade das civilizações antigas está somente onde se encontram ruínas de pedra, como em algumas regiões da América Central.A cerâmica é um exemplo maravilhoso de tecnologia ancestral. Ela materializa o conhecimento do comportamento dos materiais, da ação humana sobre a matéria e da reação da matéria à ação humana. A cerâmica é o barro queimado, a partir de processos técnicos muito únicos e sofisticados. Se o barro é plástico, flexível, mole e talvez efêmero, quando colocado sob a ação do fogo, ele adota uma forma que pode durar milhares de anos. O que a arqueologia tem feito é se apropriar dessa durabilidade do barro queimado para construir novas histórias – testemunhos de interação com o ambiente que levaram à produção da floresta tal como nós a conhecemos hoje, com sua enorme sociobiodiversidade.Assim como a vida transborda na Amazônia, as cerâmicas também abundam no solo da floresta. Provavelmente, todas as comunidades ribeirinhas, sedes de municípios e grandes cidades estão assentadas sobre sítios arqueológicos, que são lugares de histórias complexas e que hoje podem ser contadas pelas cerâmicas e seus contextos. Essas peças fizeram parte da vida cotidiana dos povos que ocupavam esse território: estavam no ato de cozinhar, de guardar, de servir, de consumir e, também, na vida ritual. Aliás, muitas vezes, esses objetos não foram feitos para durar, mas para serem quebrados e enterrados. Tudo isso pode ser encontrado no registro arqueológico, já que a cerâmica é um meio fantástico de comunicação. Ela imprime diretamente sobre sua superfície a marca da pessoa e da comunidade, seu jeito de fazer e de viver.Quando acompanhamos uma escavação arqueológica na Amazônia, vemos informações muito interessantes emergirem das diferentes camadas de solo. Há o latossolo amarelo – um solo ácido que fica na parte mais profunda – e, mais acima, grandes camadas de “terra preta”, onde brotam cerâmicas, pedacinhos de osso, sementes e tudo que se preservou da vida cultural que ocupava aquele lugar em tempos antigos.As terras pretas são solos escuros extremamente férteis, presentes em toda a Amazônia, que resultaram da ação humana, do trabalho indígena de agregar matéria orgânica e fazer uso consciente do fogo por milhares de anos. É, basicamente, o produto do lixo das aldeias, que foi responsável por produzir a fertilidade de parcelas de solo amazônico que podem chegar a 90 hectares de extensão. Somente esse dado já mostra o quanto a ideia de que a Amazônia não poderia suportar grandes contingentes populacionais está equivocada.Muitos objetos encontrados nas camadas de terra falam das relações desses povos com os outros seres da floresta, diretamente representados nas cerâmicas por meio de grafismos ou modelagens. Isso demonstra não só uma relação profunda com animais e plantas, mas também o cuidado dessas sociedades com o manejo das paisagens. São várias as espécies de plantas que foram domesticadas ou manejadas. A mandioca é um exemplo incrível de um processo milenar de manejo para transformar uma planta venenosa em uma planta comestível, com tantos subprodutos úteis ao ser humano. Ao documentar essa proximidade tão grande com outros seres, a cerâmica nos conta como o modo de vida desses povos sempre estimulou a criação de diversidade: criam-se novas variedades de plantas ao passo que também se criam e se transformam novos estilos de cerâmica.Esses jeitos de fazer, que geram múltiplos estilos de cerâmica, estão relacionados ao ensino e ao aprendizado de tradições familiares, mas também ao entendimento de que a matéria-prima responde de formas diferentes a ações diversas. Há cerâmicas temperadas, por exemplo, com cauixi, que é o exoesqueleto de uma esponja. Ele é extremamente irritante para a pele, mas, uma vez preparado – o cauixi era coletado, queimado, pilado e misturado na argila –, produz uma cerâmica extremamente resistente ao choque e ao impacto. Outras cerâmicas são temperadas com caraipé, que é a casca de uma árvore do tipo Licania. Essa casca era retirada, queimada, pilada, coada e misturada na argila, resultando em uma cerâmica muito leve e fácil de manejar. Conchas ou ossos triturados também foram usados como temperos nessas variadas receitas de produzir cerâmicas. Os temperos, ou antiplásticos, reduzem a plasticidade do barro e ajudam na secagem e na queima, para que a argila não perca água tão rápido e se quebre. Encontramos também cerâmicas não temperadas, em que os próprios minerais da argila cumprem essa função, produzindo uma cerâmica resistente e durável.Toda essa diversidade de barros e temperos indica uma tecnologia avançada, que tinha como premissa o respeito e o cuidado com os fluxos da natureza. A relação desses povos com as matérias-primas era muito diferente da visão extrativista que temos hoje. Para retirar o barro ou a árvore, era necessário pedir licença, com protocolos e regras seguidas até hoje por várias comunidades. Isso revela uma sustentabilidade ecológica que é, ao mesmo tempo, cultural e cosmológica, na qual o processo e as trocas que geraram a cerâmica são tão importantes quanto o objeto.Para a arqueologia, o processo também é fundamental: nos interessa não apenas a vasilha, mas o jeito de construir a vasilha – saber o barro certo, o tempero certo, a mistura certa, o jeito certo de agregar elementos. É como uma receita passada de mãe para filha, de avó para neta; um modo específico de fazer que gera marcas culturais que procuramos entender e reconhecer dentro da arqueologia. O reconhecimento dessas marcas do passado e de sua importância hoje em dia é algo que buscamos no Museu Paraense Emílio Goeldi, onde trabalho, e, principalmente, no projeto Replicando o Passado, em ação desde 2016.O museu existe desde 1866, em Belém, no Pará, sendo a instituição científica mais antiga da Amazônia e o segundo museu de história natural do Brasil, responsável por reunir pesquisas e acervos culturais e das ciências naturais da região amazônica. (Continua...) _ NARRAÇÃO VOZES DIVERSAS Narração: Dri Carvalho