
De acordo com os especialistas, o valor dos danos materiais registados nos protestos de 17 e 18 de Outubro em França poderá atingir mil milhões de euros. Um custo muito elevado, que será suportado em parte pelo contribuinte francês, sublinha o Presidente da Câmara de Comércio Franco-Portuguesa, Carlos Vinhas Perira. O estado de choque decorrente das violências urbanas e das violências policiais tem ainda o efeito de invisibilisar as reivindicações da sociedade civil francesa. Em França, registou-se esta segunda-feira 19 de Outubro uma primeira noite de acalmia, depois de um fim de semana de tensão, de violência urbana e violência policial. Este fim de semana marcou o regresso dos Coletes Amarelos, um movimento social nascido em 2018 para protestar contra o custo elevado da vida que se juntou, estes dias, à mobilização estudantil que exige melhores condições de ensino. Nesta entrevista, abordamos as questões económicas que levantam as destruições materiais registadas em todo o país. Qual é o valor dos danos? As indemnizações das seguradoras serão suficientes para os comerciantes? Quem pagará os salários na restauração e nas lojas saqueadas que deverão manter-se inactivos? Quem pagará pela reconstrução dos edíficios públicos? A França, mal avaliada pelas instâncias financeiras internacionais e com uma dívida pública das mais elevadas da Zona Euro, poderá sair deste impasse? Carlos Vinhas Pereira é Presidente da Câmara de Comécio Franco-Portuguesa e Professor de Finanças na Universidade Paris-Dauphine. RFI: Qual é o valor dos danos materiais registados em França durante os protestos de 17 e 18 de Outubro? São centenas de milhões de euros. Estamos a falar de grandes comércios. A Câmara de Limoges, outro exemplo, são centenas de milhões de euros para poder reconstruir. Se somarmos tudo o que foi feito em Paris e nas grandes cidades, eu diria que nos aproximamos dos mil milhões de euros de danos. E agora a grande pergunta é quem vai pagar isto tudo? RFI: Todos os os comerciantes e empresários impactadas pelos saques, pilhagens e danos materiais, poderão ser integralmente indemnizados, à altura dos danos que lhes foram infligidos? Os seguros vão ser atribuídos em função das garantias que você subscreveu. Vou-lhe dar um exemplo muito simples. Se um comércio não subscreveu a garantias facultativas como a perda de exploração, (para indemnizar todo o tempo em que não conseguiu vender a mercadoria), ficará penalizado. Quem subscreveu receberá um montante por dia, fixado em função do volume de negócio que fez no passado. Mas muitas empresas não subscreveram a tal garantia. RFI: Em França existe garantia para "tumultos e movimentos populares". Mas é opcional... Sim, é uma garantia cada vez mais utilizada. Mas nem todos a têm, porque sempre pensamos que isso só acontece aos outros. Nesse caso, nenhum dano será recuperável a 100%. Isto é de certeza absoluta. Depois estão os edifícios públicos. Aquela Câmara Municipal de Limoges é um prédio que tem 250 anos, são montantes enormes para a sua reconstrução. A Câmara Municipal não vai poder pagar, vai pedir ao Estado para pagar. Mas o Estado quem é? São os contribuintes! Ou seja, isto vai acabar por ser pago por toda a gente, por todos aqueles que pagam impostos. E nem todos os franceses pagam impostos, como sabe. Alguns estão fartos de ter sempre que pagar pelos outros. RFI: Em alguns casos, os seguros não poderão ser activados porque os danos ocorreram em locais muito distantes das manifestações. Houve casos assim no dia 17 de outubro. Há comércios que não terão direito a uma cobertura? Isto é um caso mais político. O que é que se vai passar? As companhias de seguros, as principais, vão se reunir depois de terem recolhido todas as declarações de sinistro. Efectivamente, em termos de condições gerais, estes comércios situados longe dos locais dos saques não estão abrangidos porque não estavam dentro do circuito da manifestação. Mas geralmente as companhias respondem pela positiva. Porquê? Porque em termos de notoriedade, se amanhã disser que tal companhia não pagou, vai ter efectivamente uma imagem completamente negativa. RFI: O governo anunciou as primeiras medidas para acompanhar os profissionais. A partir desta terça-feira 20 de Outubro, os trabalhadores que não puderem exercer a sua actividade vão poder ser incluídos no regime de desemprego parcial (lay-off) e receber indemnização integral por parte do Estado. E, além disso, um fundo de apoio está a ser disponibilizado aos estabelecimentos comerciais afectados, pelo tempo em que não conseguem faturar. Como é que interpreta estas medidas? Considera que são rápidas e eficazes? A primeira medida vai ser imediata, porque basta se inscrever ao Fundo de desemprego para receber. Não tenho dúvida de que será muito rápido. Já a criação de um fundo, isto é muito francês. Vai-se criar um fundo alimentado pelo Estado, ou seja, pelos contribuintes, para poder indemnizar as pessoas que não tinham seguro, para não estar a favorecer uns e penalizar os outros. E vai demorar um bocadinho mais tempo. RFI: Falamos dos danos materiais e das violências. Mas o que dizer das vozes que se elevam para denunciar uma cobertura mediática que privilegia as degradações materiais e que passa sob silêncio as reivindicações dos estudantes e as violências policiais? Acho muito triste. Muito triste porque realmente, de um lado houve manifestações completamente legais, respeitando todos os critérios impostos pela prefeitura e não houve esta cobertura. Alguns órgãos de comunicação social vão onde há mais impacto mediático. É verdade que ver uma manifestação na televisão onde tudo se passa bem, onde há silêncio ou há reivindicações sem haver pessoas a quebrar, não tem tanto impacto do que o incêndio de uma Câmara Municipal. Nem falo dos jornalistas, porque geralmente são as redacções que impõem uma cobertura dos eventos que terá mais impacto para o canal. E você sabe que a comunicação social vive de publicidade. As pessoas vão ligar mais a um canal onde têm a certeza de ver este tipo de coisas do que o canal onde vão ver pessoas a andar num ambiente de calma. Mas isto não se vai resolver hoje. RFI: E tudo isto levanta também a questão da imagem que a França dá aos investidores e, nomeadamente, aos investidores estrangeiros. Claro que isto é um travão quando se vêem estas imagens. É um travão para o investimento. Muitas empresas preferem investir num país onde há mais estabilidade do que aqui. Enquanto não houver um novo Presidente da República vai ser assim, penso eu. Vai ser um período de instabilidade muito, muito importante. E toda a economia francesa está parada.