
A humanização das ações em saúde é luta antiga. 1. Luta essa que teve instantes importantes como o movimento da reforma psiquiátrica na década de 70 que coincide com a luta contra o regime civil-militar no Brasil. Em 2001 no Brasil , a lei Paulo Delgado é um avanço pois ajudará a constituir a ideia da proteção dos direitos de brasileiros sob tratamento na área de saúde mental. Mesmo sabendo que tal lei passou 12 anos sendo tramitada ela ainda assim representa algo no sentido da responsabilização do Estado na área além de uma força social destinada a impulsionar a migração do tratamento via isolamento para o tratamento via inclusão na família e formação de redes de apoio. Há um aspecto que porém limita o alcance dessa lei bem como ameaça a sua efetividade. Aspecto esse que não se remedia por decreto mas por uma mudança cultural no modo como todos nós encaramos a questão. Qual seria esse aspecto? A necessidade prenhe de que a sociedade moderna carece de um grupo que seja o vilão de suas narrativas. 2. Aqui aparece a primeira dificuldade da sociedade moderna que tem origem porém na era da inquisição pela igreja católica, lida com o diferente. Durante idade média segundo Thomas, a feitiçaria ocupava lugar de “bode expiatório”. Por meio de manuais de caças as bruxas os inquisidores caçavam, diziam quem poderia ser considerado bruxa tendo como aliados de diagnóstico médicos. E pasmem, as razões para ser chamada de bruxa aparecem em documentos da época. Preguiça , desobediência aos pais, insubordinação a maridos e até mesmo doenças contraídas por pessoas próximas a essas mulheres. O gênero feminino segundo se dizia, era preferido pelo diabo por ser entregue a luxúria. Ser homem é ser intocável as tentações do diabo. 3. O livro famoso chamado MALLEUS MALEFICARUM de Sprenger e Kramer, dominicanos inquisidores afirmava: “ toda feitiçaria decorre da luxuria carnal, e nas mulheres isso é insaciável”. O papa Inocêncio em bula de 1484 ordenava explicitamente : “ decretamos e ordenamos que os já mencionados inquisidores tenham o poder para proceder à justa correção, ao encarceramento e ao castigo quaisquer pessoa(...) a quem sejam nomeados”. A lucidez de Thomas é que os doentes mental ocupam exatamente esse papel hoje que teria na psiquiatria institucional e manicomial o papel correspondente de inquisidores. Encarcerar e privar de liberdade por meio de uma arquitetura que mascara a violência é a diretiva que guiou por muitos anos os cuidados em saúde mental no Brasil e que com o corte de recursos para a área em a partir de 2020, tende a se tornar a principal politica em saúde mental.