
Neste episódio, a conversa é sobre algoritmo e política. Para abordar esse tema, vou falar com quem conhece o assunto na teoria e na prática: Sérgio Amadeu, sociólogo, doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo e professor da federal do ABC. Sergio Amadeu foi presidente do Instituto Nacional de Tecnologia da Informação e um dos grandes implementadores dos Telecentros na América Latina. Ele é o criador do Tecnopolítica, um podcast essencial para quem entender as relações entre tecnologia, poder, e relações sociais. Segundo o sociólogo, “a chamada inteligência artificial pode trazer muitos benefício e igualmente gerar uma acentuação de tendências que a sociedade quer evitar, como o autoritarismo. Então ela é problema político e não técnico, precisa ser regulada pela sociedade.” Amadeu comentou os resultados sobre a análise que realizou sobre políticas públicas para a inteligência artificial em 60 países. “Observamos um desenvolvimento assimétrico no planeta. Países como Estados Unidos, Alemanha, China estão desenvolvendo soluções e coletando dados no mundo inteiro. A maioria dos outros países – que chamo de colonizados – se transforma em lugar para extração de dados da população para treinar os algoritmos de inteligência de máquina das empresas desses países que estão comando do desenvolvimento da chamada da inteligência artificial.” De acordo com Amadeu, trata-se de “uma nova divisão da ciência, da tecnologia, da economia e da política. Eu uso o termo colonialismo. O fluxo de dados acontece em direção do sul global para o norte - e nunca o inverso. Os mantras passam a ser ´não regulamente a inteligência artificial porque impede a inovação´ e ‘não fechem as fronteiras de dados’. Ou seja, entregamos os dados, eles criam modelos e vendem para nós. Cabe a nós sermos modernos. Ser moderno, nesse caso, é ser consumidor de produtos de inteligência artificial e entregar os seus dados.” Na conversa, o sociólogo critica a política pública adotada pelo governo brasileiro. “É genérica, está longe de ter objetivos, responsabilidades ou cronogramas. São documentos que têm a função de impedir aqueles que querem desenvolver a inteligência artificial com base nos primados: ´não restrinjam os dados’ e ‘não regulem’”. Para Amadeu, é preciso desenvolver políticas públicas adequadas de infraestrutura e de pesquisa. “Quem disse que o mais barato não sai caro para o país? O errado é só ter projetos com empresas e não desenvolver nossa capacidade básica de produzir, de desenvolver outras possibilidades em inteligência artificial. No mundo onde os dados geram valor, estamos entregando de mãos beijadas os dados”. O sociólogo também discute o papel de bots e as implicações do conteúdo pago nas plataformas. “Me preocupa o impulsionamento pago de conteúdo. Qualquer postagem paga na rede deve apresentar que é pago e qual o valor. As pessoas precisam saber quanto as empresas estão pagando para replicar conteúdos. Na política, as campanhas não são feitas apenas pelos comitês oficiais. São também feitas por infinidade de coletivos que têm muita grana. As pessoas só terão noção da dimensão do que é gasto nas redes, na modulação de comportamento, quando souberem que a maior parte disto é feita como muita grana”.